AS PERGUNTAS DO REI MILINDA

Atualizado: 29 de Jul de 2020



MILINDA PANHA

As Perguntas do Rei Milinda

Título original: The Questions of King Milinda

Traduzido por: Raul Xavier

Revisado pela Sangha do Templo do Dragão do Dharma


E-book gerado automaticamente em 02/06/2014 01:17:51.

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INTRODUÇÃO


Nos países asiáticos, onde predomina o budismo com as várias seitas, o Milinda Panha ‒ “Perguntas de Milinda”, é um texto que monges e leigos budistas leem e admiram. O autor é desconhecido, mas a senhora Rhys Davids (The Milinda Questions), admite que tenha sido um pandit (bacharel) da casta bramânica. Segundo essa afamada indianista, terminando o pandit o seu curso em alguma escola nas proximidades de Sagala, o moço brâmane, cujo nome deve ter sido Manava, dedicou-se à profissão de redator de trabalhos literários e de cartas particulares, para a assinatura de pessoas das altas castas, e à de professor particular. Nessa qualidade, teria sido Manava admitido no palácio real a serviço do rei Dionísio, sucessor de Milinda. Milinda é a tradução do nome grego Menandro.


[...] Menandro teria reinado durante a segunda metade do século II a.C. Era um rei que gostava de participar de discussões filosóficas, como também gostavam disso gregos e hindus. Um dia, supõe ainda a Sra. Rhys Davids, no palácio do rei Dionísio, decidiu-se abrir o armário onde se guardavam as placas metálicas em que o brâmane pandit reproduzira as memoráveis discussões do rei Milinda com um monge inteligente e instruído.


O texto teria sido copiado em folhas de matéria vegetal, amarradas em rolo. [...] No Milinda Panha expõe-se a Tradição Theravada*, que é professada na Ilha do Ceilão, na Birmânia, nos países da península da Indochina (p-ex, Vietnã), na Tailândia, na área das nações da Insulíndia, no Oceano Pacífico. Essa tradição bem se pode denominar ortodoxa e é praticada pelos monges que seguem a Tradição dos Theravadins. ― Raul Xavier


* No texto original do tradutor, é utilizado o Termo 'Hinayana', atualmente em desuso.


Livro I - Antecedentes

Capítulo 1: A Descrição de Sagala


Havia outrora no país dos Ionakas (Gregos), uma cidade de nome Sagala com muitas casas comerciais, parques, jardins, bosques, lagos, tanques para os lótus. Estava próxima de montanhas e de rios. Os seus inimigos tinham desistido de atacá-la, pois estava defendida por muitas fortalezas e torres sólidas. Além de grandes portas e extensas arcadas, a cidadela, no centro da cidade, estava rodeada de fossos profundos. As ruas e praças eram bem traçadas. Nelas havia lojas, cheias de objetos ricos e variados, casas imponentes como os cimos do Himalaia. Nessas ruas passeavam homens e mulheres e na multidão que passava viam-se nobres, brâmanes, burgueses, gente do povo. E entre os brâmanes e ascetas notavam-se os sábios eminentes. Havia lá grande abundância de gêneros alimentícios, nada faltando em bebidas, doces, frutas. Nas lojas vendiam-se tecidos vistosos, panos de Kasi e Kotumbara, pedras preciosas, vasos de cobre e de ouro. Era enfim uma cidade tão opulenta quanto Uttarakuru, uma cidade de deuses como Alakamanda.


Capítulo 2: As Vidas Anteriores


Aqui nos detemos para contar a estória anterior dos nossos personagens. Outrora, nos templos do Buda Kassapa, nota-se à margem do Ganges um monastério com muitos monges. Esses homens virtuosos levantavam-se ao nascer do sol e, pensando nos méritos do Buda, pegavam em vassouras, varriam o pátio e juntavam o lixo.

Certa vez, um monge observou a um dos noviços:

― Vê lá. Tira isso daqui! ― E apontava para alguma coisa no chão.

O noviço pareceu não ouvir. O monge repetiu a advertência e o noviço não atendeu. Irritado, o monge exclamou:

― Este noviço é indisciplinado! – E bateu nele com o cabo da vassoura.

Medroso e com lágrimas nos olhos, o noviço limpou o chão, mas pensou: ― Pelo mérito deste ato, em cada uma das minhas existências futuras, até alcançar o Nirvana possa eu ser forte e brilhante como o sol ao meio-dia. Finda a sua tarefa, ele foi banhar-se nas águas do Ganges. Vendo as águas espumejantes do rio, formulou ainda um segundo desejo: ― Que eu tenha em minhas futuras existências, até alcançar o Nirvana, o dom da resposta rápida e infalível como estas águas.

Ora, enquanto isso, o monge, depois de guardar a vassoura, veio banhar-se no Ganges e ao entrar na água ouviu as palavras do noviço. E pensou consigo mesmo: ― Ele ousa exigir alguma coisa, só porque agiu por minha ordem. Se é assim, que irei obter? E pensou: ― Em cada existência minha, até alcançar o Nirvana, desejo ter o dom da resposta certa, como as águas do Ganges, e para resolver habilmente todas as questões que este noviço me propuser!

No intervalo entre a existência do buda anterior, os dois passaram por várias existências, no mundo dos deuses e no dos homens.

Assim como o nosso Bem-aventurado tinha visto o deão Tissa Moggaliputta, viu também aqueles dois monges e disse: ― Eles renascerão quinhentos anos depois do meu Nirvana. E o cânone da Doutrina e da Disciplina que eu ensinei, em linguagem sutil, eles irão esclarecer, interpretar, explicar, mediante perguntas e exemplos!


Capítulo 3: O Rei Milinda


Ora, o noviço afinal veio a ser no Jambudipa, na cidade de Sagala, o rei Milinda, perspicaz, inteligente, habilidoso, cuidadoso, exato cumpridor de todos os atos do ritual, da devoção, relativos ao passado, no futuro, ou ao presente. Ele estudara todas as matérias do Saber: a Revelação, a Aritmética, a Música, a Medicina, os Vedas, os Encantamentos, a Arte da Guerra, a Poesia, o Cálculo pelos dedos, ao todo dezoito ciências. Em todo o Jambudipa, o rei Milinda não tinha rival em força e agilidade, coragem e saber. Possuía muitos bens, grandes rendimentos, muitas tropas.

Um dia, o rei Milinda saiu da cidade para a revista das quatro armas do seu exército. Depois do desfile dos regimentos, o rei, que gostava de falar e de conversar com os sofistas, ou casuístas, e outros indivíduos dessa espécie, perguntou aos seus secretários: ― Que faremos, depois de voltarmos à cidade? Existe alguém capaz de resolver minhas dúvidas? Algum letrado, asceta, brâmane, abade, guru, algum adepto do Bem-aventurado Buda para conversar comigo?

Os quinhentos Ionacas responderam: ― Maharajá, existem somente seis mestres: Purana Kassapa, Makkhali Gosala, Nigantha Nataputta, Sangaya Belatthaputta, Ajita Kesakambali e Pakhuda Kaccayana. São abades, fundadores de escolas, conhecidos, afamados, respeitados pelo povo. Sua Majestade deve fazer-lhes perguntas para obter a solução das suas dúvidas.


Então o rei Milinda subiu ao seu carro, puxado por belos animais e foi visitar Purana Kassapa. Depois de cumprimentá-lo, sentou-se ao seu lado e perguntou-lhe:

― Respeitável Kassapa, quem toma conta dos homens?

― Majestade, a Terra.

― Se é a Terra que toma conta dos homens, por que os danados caem no inferno Avici, atravessando a Terra?

Ouvindo essa resposta, Purana Kassapa ficou engasgado. Nem pôde cuspir. Ficou sem jeito, mudo, cabisbaixo.


Então o rei Milinda foi visitar Makkhali Gosala a quem logo perguntou:

― Respeitável Gosala, há boas e más ações? Há um fruto, um amadurecimento, dos bons e dos maus atos?

― Não, Senhor! Aqueles que neste mundo são nobres, brâmanes, burgueses, gente do povo, párias, continuarão sendo nobres, brâmanes, burgueses, gente do povo, párias. Aqui não se cuida de ações boas ou más.

― Se for assim, Gosala, quem teve as mãos cortadas, neste mundo, irá para o outro com as mãos cortadas? Quem tiver nariz, orelhas, pés cortados, irá para o outro mundo assim mutilado?

Gosala permaneceu mudo.


Então o rei Milinda pensou: ― Este Jambudipa está vazio! Não há ninguém para discutir comigo. Este Jambudipa é um saco de grãos de trigo! Não há ninguém que esclareça as minhas dúvidas, nem brâmane, nem asceta! E disse aos secretários: ― A noite está clara, verdadeiramente deliciosa. Quem poderíamos visitar, asceta ou brâmane, para fazer-lhe perguntas? Quem pode conversar comigo, resolver minhas dúvidas? Os secretários nada disseram.


Capítulo 4: A Encarnação do Deva Mahassena


Naquele tempo, durante doze anos, a cidade de Sagala esteve vazia de sábios, brâmanes, burgueses. Quando falavam de um, o rei ia visitá-lo para dirigir-lhe perguntas. Mas revelaram-se incapazes de satisfazer o rei, nesse jogo de perguntas e respostas. Alguns saíram da cidade, outros não falaram mais. Naquela época, milhões de Arhats moravam no Himalaia, em Rakkhitatala. O Venerável Assagutta, ouvindo por meio do ouvido divino as palavras do rei Milinda, reuniu a Confraria, no alto do monte Yogandhara e perguntou: ― Irmãos, há entre os monges alguns capazes de discutir com o rei Milinda e resolver os seus problemas? Nenhum respondeu. Todos ficaram silenciosos, embora o Venerável Assagutta lhes tenha repetido três vezes a mesma pergunta. Este então lhes disse: ― No mundo dos deuses, a leste do Vejaianta, levanta-se um palácio celestial, onde mora um deus chamado Mahassena. Ele pode discutir com Milinda e resolver os problemas desse rei. Então os Arhats desapareceram do Yogandhara e apareceram no mundo dos deuses.


Sakka, rei dos deuses, viu-os vindo ao longe. Aproximou-se de Assagutta para saudá-lo e de pé avisou: ― Venerável, vejo aproximarem-se muitos monges. Eu sou um servo da Irmandade. Que devo fazer? Que é necessário? Assagutta respondeu: ― No Jambudipa, na cidade de Sagala, mora o rei chamado Milinda, admirável nas discussões. Goza da fama de ser o maior dos doutores. Está sempre importunando a Irmandade com perguntas capciosas. Replicou o rei dos deuses: ― Esse Milinda caiu do céu para renascer entre os homens. Mas dispomos aqui do deus Mahassena que reside no palácio Katumati. Ele pode discutir com o rei e solucionar os seus problemas. Vamos pedir-lhe que consinta em renascer entre as homens. Ditas estas palavras, Sakka e a Irmandade foram falar a Mahassena, a quem o monge disse: ― A Irmandade pede-te que renasças entre os homens. Mahassena observou: ― Senhor, nada tenho para fazer no mundo dos homens, onde os desejos são muitos. Quero ficar aqui no mundo dos deuses, elevando-me sempre até chegar ao Nirvana. Assagutta replicou a Mahassena. ― Amigo, já andamos pelos mundos dos homens e dos deuses e não encontramos ninguém capaz de vencer a dialética do rei Milinda. Por isso todos nós te rogamos: volta ao mundo dos homens para defender o Ensinamento do Buda. Então concordou Mahassena, dizendo: ― Não há dúvida, eu posso vencer a dialética do rei Milinda. E alegre assumiu o compromisso de renascer no mundo dos homens.


Capítulo 5: A Penitência de Rohana


Os monges desceram do mundo dos deuses e reapareceram no Himalaia, em Rakkhitatala. Assagutta perguntou-lhes:

― Algum monge não compareceu à reunião da Confraria?

Um deles respondeu:

― Sim. O Venerável Rohana acha-se em êxtase na montanha, há dezessete dias. Mande-lhe um mensageiro.

Ora, justamente naquele instante, o monge Rohana despertou do êxtase e pensou: ― Os irmãos estão à minha espera. Saiu do Himalaia e dirigiu-se a Rakkhitatala.

E Assagutta perguntou-lhe:

― Por que, irmão Rohana, quando O Ensinamento do Buda está em crise, não manifestas interesse nos problemas da Irmandade?

― Venerável ― explicou Rohana ―, foi por um descuido da minha parte.

― Está bem. Faz penitência ― observou Assagutta.

― Como, Venerável?

― Nas encostas do Himalaia, existe a aldeia Kajangala, onde mora um brâmane chamado Sonuttara. Vai nascer-lhe um filho, que se chamará Nagasena. Durante sete anos e dez meses irás à casa desse brâmane pedir-lhe esmola. Farás de Nagasena um monge budista e então serás absolvido. O Venerável Rohana concordou.


Capítulo 6: O Nascimento e Educação de Nagasena


O deus Mahassena desceu do céu e reencarnou-se no seio da mulher do brâmane Sonuttara. No momento da concepção, ocorreram prodígios: as armas e utensílios domésticos rebrilharam; a semente recém-plantada brotou; e caiu uma grande chuva. Durante sete anos e dez meses, o Venerável Rohana foi pedir esmola na casa do seu colega. Mas nunca lhe deram uma colher de arroz ou de farinha de cevada. Jamais lhe disseram uma palavra ou tiveram um gesto de cortesia. Foi insultado várias vezes e jamais lhe disseram ao menos que fosse pedir esmola em outra casa. Um dia, entretanto, tinham já decorrido sete anos e dez meses, ele ouviu que lhe falavam. ― Venerável, vá pedir em outra casa!


Naquele dia, o brâmane, voltando das suas ocupações, encontrou Rohana e perguntou-lhe: ― Então, foste à minha casa, monge? ― Sim, brâmane. Estive lá. ― Recebeste alguma coisa? ― Sim, brâmane, recebi. Entrando em casa, descontente, o brâmane indagou aos seus familiares: ― Deram alguma coisa a esse monge? Responderam-lhe: ― Não! Nada! No dia seguinte, o brâmane sentou-se à porta da sua casa, pensando consigo: “Hoje vou repreender o monge por sua mentira”. Quando o monge apresentou-se à porta, falou-lhe o brâmane: ― Disseste-me ontem que tinhas recebido esmola em minha casa. Mas, na verdade, nada te ofereceram. Vocês monges têm permissão para mentir? Respondeu-lhe o monge: ― Brâmane, durante sete anos e dez meses, nada recebi em sua casa. Nem mesmo me disseram que fosse pedir esmola em outras casas. Mas, ontem, convidaram-me a andar em busca de esmola mais adiante. Foi essa cortesia que me induziu a dizer-te que ontem recebi alguma coisa em tua casa.


O brâmane refletiu: “Se uma frase cortês faz esses homens proclamarem que receberam um beneficio, que não diriam eles, se recebessem alimento?” Ordenou aos seus familiares que servissem ao monge várias colheres de arroz, preparado em sua cozinha, mais uma sopa de legumes, prometendo que, daquele dia em diante, ele receberia aquela dádiva. Passaram-se alguns dias, durante os quais o brâmane foi observando as maneiras do monge. Afinal resolveu convidá-lo a fazer sua refeição dentro de casa. Todos os dias, o monge almoçava na casa do brâmane e antes de despedir-se recitava um trecho do Ensinamento do Buda.


Dez meses depois, a mulher do brâmane deu à luz um menino que recebeu o nome de Nagasena. Quando o filho atingiu os sete anos, disse-lhe o pai:

― Meu filho Nagasena, deves aprender as ciências, cujo estudo é tradicional em nossa família.

― Quais são, meu pai?

― Os três Vedas, que se denominam ciências e os outros conhecimentos que são as artes.

― Está bem, pai. Vou aprendê-las.

Então o brâmane Sonuttara contratou outro brâmane para preceptor do filho, pagando bem. Instalou o professor no sobrado e recomendou-lhe que ensinasse ao menino as orações dos livros sagrados. Quanto a Nagasena, bastou-lhe ouvir uma vez a leitura dos Vedas para logo entender e guardar na memória os textos sagrados. Aprendeu as silabas, o vocabulário, tornando-se logo lexicógrafo e gramático hábil, na casuística, na psicologia dos grandes homens sem descurar da arte de adivinhar. Então Nagasena perguntou ao pai:

― Ainda há alguma coisa mais para aprender? A ciência tradicional em nossa família resume-se nisso? ― Sim, respondeu o pai.

Depois da última lição, o rapazola desceu do sobrado. Absorto em meditações, ele sentia o coração vibrar, cheio de lembranças. Considerando o começo, o meio e o final do saber, que adquirira, não via nenhum fundamento nesse saber e dizia consigo: “Os Vedas são vazios, tão vazios como um fardo de sementes sem polpa, sem substância”. E ficou descontente.


Capítulo 7: A Ordenação de Nagasena


Naquele momento, o Venerável Rohana, em sua cabana soube do que estava pensando o jovem Nagasena. Vestiu-se, tornou a sua tigela e o manto e, desaparecendo em Vattanyia, apareceu na aldeia de Kajangala. Nagasena estava sentado à soleira da porta da sua casa e vendo-o ao longe sentiu-se satisfeito e pensou: “Talvez este eremita saiba que posso descobrir algo substancial”. E, aproximando-se, cumprimentou-o, perguntando-lhe:

― Amigo, quem és tu assim calvo e com esse manto amarelo?

― Chamam-me o Exilado, respondeu Rohana.

― Por que te chamam Exilado?

― Porque me exilei do mundo para purificar a mente.

― Por que não tens cabelos?

― Depois de saber quais são os obstáculos, o Exilado raspa os cabelos e a barba.

― Quais são os obstáculos?

― Tudo quanto nos envaideça e nos agrade, impedindo-nos de gostar de qualquer conhecimento sutil. ― Por que não te vestes como toda gente?

― O traje das pessoas mundanas tem sua origem no prazer dos sentidos. O Solitário ignora os perigos do traje. Por isso, a minha veste não é como a das demais pessoas.

― Conheces as artes?

― Conheço-as, sem dúvida. E também a mais elevada.

― Podes ensiná-la?

― Posso.

― Então quero aprendê-la contigo.

― Não agora, meu filho. Vim aqui pedir esmola.

Logo Nagasena tomou a tigela das mãos de Rohana. Foi ao interior da casa e voltou, trazendo ao monge vários pratos saborosos. Depois de Rohana comer, lavar a tigela e as mãos, Nagasena pediu:

― Revela-me agora a tua arte.

― Filho, quando te libertares dos obstáculos mundanos e obtiveres a permissão do teu pai e da tua mãe e tomares o hábito que estou vestindo, eu te revelarei minha arte.


Nagasena foi falar ao pai e à mãe, repetindo-lhes o que ouvira do monge. Os progenitores não se opuseram a que Nagasena resolvesse sua vocação como lhe parecesse melhor. Então o Venerável Rohana conduziu Nagasena ao eremitério de Vatanyia, em Vijambhavatthu, onde os dois passaram a noite. Levou-o depois ao mosteiro de Rakkhitatala, onde Nagasena recebeu as ordens monacais, na presença de todos os Arhats. Uma vez ordenado, Nagasena insistiu com Rohana:

― Venerável, tomei o meu hábito, revela-me a tua arte.

Então Rohana pensou consigo mesmo: “Por onde devo começar a ensinar-lhe? Pelos Sermões? Pela Dogmática? Nagasena é inteligente, vai aprender a Dogmática sem dificuldade”. E assim foi. Nagasena dispensou a repetição dos textos dogmáticos. Bastou uma lição para cada texto e ele aprendia, logo dizendo a Rohana:

― Basta, Venerável. Não é necessário repetir. Já sei.

Terminado o curso, Nagasena dirigiu-se aos Arhats, declarando-lhes:

― Veneráveis, posso dizer todo o Abhidhammapitaka nos seus capítulos Kusaladhamma, Akusaladhamma, Abyakatadhamma.

― Muito bem, Nagasena. Repete-os então.

Durante sete meses, Nagasena recitou os sete livros. A terra estremeceu, os deuses aclamaram-no, os Brahmas aplaudiram-no. Caiu do céu uma chuva de pó de sândalo e flores celestiais. E como já tinham decorrido vinte anos, os Arhats confirmaram a sua ordenação.


Capítulo 8: Nagasena na Casa de Assagutta


Na manhã seguinte, Nagasena vestiu-se, tomou a tigela e o manto e foi com seu mestre mendigar na aldeia. Durante o caminho, pensou: “Meu mestre é um desmiolado, um tolo. Começou a ensinar-me pela Dogmática e não me revelou as outras partes dos Discursos do Buda”. Rohana percebeu o pensamento de Nagasena e disse-lhe: “Este pensamento é indigno de ti, Nagasena. Não é digno de ti”. Nagasena pensou consigo mesmo: “Maravilhoso! Prodigioso! Meu mestre adivinhou o que eu estava pensando. É um grande sábio. Devo pedir-lhe perdão”. E falou a Rohana:

― Perdoa-me, venerável! Não pensarei mais assim.

Replicou-lhe Rohana:

― Não vou perdoar-te tão facilmente. Há uma cidade chamada Sagala, governada pelo rei Milinda. Esse monarca está sempre importunando a nossa Comunidade com perguntas sobre questões ainda discutidas. Se conseguires vencer o rei, eu te perdoarei.

― Refere-se ao rei Milinda, venerável? Ora! Se todos os reis de Jambudipa viessem me fazer perguntas, eu as despedaçaria todas. Perdoa!

Mas, ainda uma vez lhe foi negado o perdão. Diz-me então, Venerável, onde devo passar os três meses de retiro.

― Nagasena, mora em Vatanyia o Venerável Assagutta. Vai vê-lo e diz-lhe da minha parte: “Venerável, meu mestre saúda-o! Deseja saber como o senhor está passando, se goza saúde, se está satisfeito. Mandou-me passar em companhia do senhor meus três meses de retiro...” Se ele perguntar pelo nome do teu mestre, diz-lhe que é Rohana. E se insistir: “Qual é o meu nome?” Tu lhe dirás: – “Venerável, meu mestre sabe do nome do senhor”.

― Está bem, Venerável. ― Foi a resposta de Nagasena, que se despediu de Rohana.

Chegando a Vatanyia, Nagasena dirigiu-se à morada de Assagutta a quem repetiu o que lhe dissera seu mestre.

― Está bem. ― Consentiu Assagutta.

― Guarda a tua tigela e o teu manto.

Na manhã seguinte, Nagasena varreu a cela e apresentou ao monge uma tigela, água e um palito. Assagutta varreu a cela outra vez, repetiu a lavagem da boca, tomou mais um palito, nada falando a Nagasena. Assim foi, durante sete dias. No sétimo dia, Assagutta dirigiu a Nagasena as mesmas perguntas, feitas no momento da sua vinda, e Nagasena deu as mesmas respostas. Então Assagutta permitiu a Nagasena ficar em sua companhia, durante a estação das chuvas.


Capítulo 9: A Partida para Pataliputta


Ora, naquele tempo, desde trinta anos, uma piedosa mulher tomava conta do Venerável Assagutta. No fim daqueles três meses, a mulher perguntou-lhe se havia outro monge em sua companhia. ― Sim, afirmou Assagutta. Chama-se Nagasena. ― Então, Venerável, aceite almoçar em minha casa com Nagasena. O silêncio de Assagutta era indício de que aceitava o convite da mulher.


No dia seguinte, acompanhado de Nagasena, Assagutta foi almoçar em casa da mulher, que lhes preparou uma excelente refeição. Findo o almoço, Assagutta lavou a tigela, as mãos e recomendou a Nagasena: ― Agora, deves agradecer com um discurso. Então a mulher observou: ― Sou uma senhora respeitável. Diz um bom discurso em que se ouçam conceitos elevados.


Nagasena discursou, citando trechos de profundo significado em torno da ideia de vazio, exposta no Abhidhamma. A mulher estava sentada, mas enquanto ouvia o monge abriu-se no íntimo a visão da Lei, que mostra o começo e o fim de tudo. Quanto a Nagasena, depois de falar, refletindo na doutrina que expusera, teve a intuição de que pisara no primeiro degrau da Perfeição. Assagutta percebeu que ambos tinham obtido o entendimento da Lei e elogiou-os. ― Muito bem, Nagasena! Com uma flecha alcançaste dois alvos! Milhões de divindades manifestaram sua alegria, no mundo dos deuses. Quando Nagasena voltou à companhia de Assagutta, este lhe disse:

― Vai a Pataliputta. Lá no mosteiro reside o Venerável Dhammarakkhita. Aprende com ele a Palavra do Buda.

― Qual a distância daqui até lá?

― Centenas de léguas.

― A estrada é longa, as esmolas poucas. Como poderei fazer a viagem?

― Vai, Nagasena. Receberás no caminho arroz escolhido e alimentos bem preparados.

― Bem, concordou Nagasena. Saudou o mestre, tomou a tigela, o manto, e saiu rumo a Pataliputta.


Capítulo 10: Partida para Sagala


Naquele tempo, um grande comerciante de Pataliputta viajava pela estrada daquela cidade, acompanhado de quinhentas carretas. Vendo Nagasena a certa distância, parou o comboio e foi cumprimentá-lo:

― Aonde vai, Monge?

― A Pataliputta, meu caro senhor.

― Muito bem, eu também vou para lá. Podemos viajar juntos.

Encantado com as boas maneiras de Nagasena, o comerciante ofereceu-lhe uma refeição muito boa. Depois sentou ao lado do monge para conversar:

― Como te chamas, Monge?

― Nagasena.

― Conheces a Palavra do Buda?

― Conheço os textos do Abhidhamma.

― Ótimo! Sou como tu um crente no Abhidhamma.

Recita, Monge, alguns textos. Então Nagasena recitou ao comerciante trechos do Abhidhamma. À medida que o monge falava, abria-se na mente do comerciante, puro e límpido, o entendimento da Lei. O comerciante ordenou que as carretas passassem adiante. Nas proximidades de Pataliputta, detiveram-se em uma encruzilhada onde o comerciante disse a Nagasena:

― Monge, este caminho vai para o mosteiro de Asokarama. Aqui está uma peça de lã fina com dezesseis côvados de comprimento e oito de largura. Aceite-a, por favor. Nagasena aceitou e o comerciante muito satisfeito continuou sua viagem.


Chegando a Asokarama, Nagasena cumprimentou Dhammarakkhita, explicando-lhe o motivo da sua vinda. No decurso dos três primeiros meses, sem necessidade de repetir, aprendeu a Palavra do Buda, exposta no Tripitaka, e durante os três meses seguintes alcançou o seu significado. Observou-lhe então Dhammarakkhita.

― Nagasena, o vaqueiro toma conta das vacas. Mas são outros que bebem o leite. Tu adquiriste a Palavra do Buda, exposta nos Três Cestos, mas não atingiste ainda a situação do Arhat.

― É possível, Venerável. Mas não falemos mais nisso.

Naquele mesmo dia, à noite, Nagasena atingiu o estado de Arhat, adquirindo o entendimento do significado das palavras e contexto, o conhecimento das etimologias e a arte da discussão. No momento em que ele penetrou na Verdade, aclamaram-no todos os deuses, a Terra rugiu, os Brahmas aplaudiram e caiu do céu uma chuva de flores e de pó de sândalo.


Então os Arhats, reunidos no Himalaia, em Rakkhitatala enviaram-lhe esta mensagem. “Venha, Nagasena, nós desejamos vê-lo.” Logo o monge desapareceu do Asokarama e apresentou-se aos Arhats, que lhe disseram:

― O rei Milinda está importunando a nossa Comunidade com as suas perguntas e chicanas. Vai, Nagasena, corrigir esse monarca. Observou-lhes Nagasena:

― O rei Milinda é pouco. Se todos os reis do Jambudipa viessem fazer-me perguntas, eu inutilizaria os seus argumentos com as minhas respostas.


Capítulo 11: Milinda vai ao Encontro de Nagasena


Naquele tempo, o monge Ayupala morava no cenóbio de Sankheyya. Certa noite, o rei Milinda disse aos seus mandarins:

― Está deliciosa esta noite clara! Eu gostaria agora de conversar com um asceta ou brâmane, fazer-lhe perguntas. Quem pode discutir comigo, resolver minhas dúvidas?

― Maharajá ― disseram-lhe os quinhentos secretários ― há um chamado Ayupala, conhecedor dos Três Pitakas, muito instruído e conhecedor da doutrina. Ele mora em Sankheyya. Vai interrogá-lo.

O rei subiu ao seu carro, escoltado pelos 500 Ionakas. Chegando ao cenóbio de Sankheyya, cumprimentou Ayupala e depois de sentar-se ao seu lado perguntou-lhe:

― Venerável Ayupala, qual o objetivo do seu afastamento do mundo, qual o seu último objetivo?

― A vida piedosa, a vida calma. Este é o objetivo do meu afastamento do mundo.

― Existem leigos com vida piedosa, com vida calma?

― Sim. Em Benares, no Parque das Gazelas, o Bem-aventurado moveu a Roda da Lei. Então, dezoito dezenas de milhões de Brahmas e inumeráveis deuses converteram-se à sua doutrina. Todos eram leigos. Depois, inumeráveis deuses converteram-se à sua doutrina. Todas eram leigos.

― Neste caso, Venerável, é inútil o seu afastamento do mundo. Os ascetas budistas saem do mundo, praticam seus exercícios ascéticos por efeito de ações anteriores. Aqueles que se alimentam apenas uma vez por dia, sem dúvida outrora foram ladrões de víveres pertencentes a outras pessoas. A consequência é agora só poderem alimentar-se uma vez por dia. Nisso não há nem virtude, nem ascetismo, nem santidade. Aqueles que estão vivendo desabrigados foram outrora, sem dúvida, destruidores de cidades, de residências de milhares de outras pessoas. O resultado disso foi estarem agora sem moradia, sem disporem de uma casa para se abrigarem. Nisso não há virtude, nem ascetismo, nem santidade. Aqueles que sempre estão sentados e não se deitam foram outrora, sem dúvida, assaltantes nas estradas, que detinham os viajantes, amarravam-nos, deixando-os sentados no chão. Nisso não há nem virtude, nem ascetismo, nem santidade. O monge Ayupala não respondeu.

Então disseram os quinhentos mandarins:

― O monge é um sábio, mas tímido e não ousa replicar.

O rei Milinda fitou Ayupala, silencioso, bateu palmas e exclamou:

― O Jambudipa está vazio! Não há ninguém, asceta ou brâmane, capaz de discutir comigo, de resolver as minhas dúvidas... Olhou em torno e notou que os secretários não estavam nem intimidados, nem embaraçados. E pensou: ― Talvez exista outro sábio capaz de discutir comigo. Por isso, os secretários não parecem embaraçados. E perguntou-lhes:

― Conhecem algum sábio, que possa discutir comigo, responder minhas dúvidas?

Ora, naquele tempo estava o Venerável Nagasena, rodeado de monges, chefe de uma Confraria, preceptor de um grupo, sendo conhecido, ilustre, respeitado pela multidão, sábio, desembaraçado, inteligente, correto, perspicaz, instruído, hábil, erudito, conhecedor do Tripitaka, possuidor da ciência, dos conhecimentos analíticos, que conservam na mente as nove espécies de textos sagrados, perfeito conhecedor da Palavra do Buda, perito na aquisição e no ensino do significado do texto doutrinal, possuidor de uma dialética variada e invencível, eloquente, dotado de palavra agradável, difícil de ser igualada, vencida, ultrapassada, detida, com expressão indomável como o oceano, imutável como o Rei das montanhas, e que tendo renunciado às impurezas, dissipou as trevas; Poderoso nos discursos, a esmagar escolas rivais, vencedor de heresiarcas, honrado, estimado, reverenciado pelos sábios, leigos, homens, mulheres, príncipes, funcionários; que recebe muitas vestes, alimentação, moradia, remédios, o primeiro entre todos; que demonstra aos ouvintes inteligentes e sábios, atentos às suas palavras, o tesouro dos nove elementos do Ensinamento Budista, ensinando-lhes o ideal da Lei; que empunha o facho da Lei, levanta o mastro da Lei, celebra o sacrifício da Lei, desfralda o estandarte da Lei, faz soar o clarim da Lei, bate no tambor da Lei; ruge como um leão, tem uma voz profunda como a de Indra, de cujos flancos se derramavam as águas da misericórdia, sobre o mundo. Nagasena, depois de ter atravessado burgos, cidades e aldeias, tinha chegado a Sagala, instalando-se no eremitério Sankheyya na companhia de oitenta mil monges. Então Devamantyia disse ao rei:

― Espera, espera, Maharajá! Existe o monge Nagasena, no monastério Sankheyya. Vai consultá-lo, Maharajá. Ele pode discutir contigo, resolver tuas dúvidas. Ouvindo esse nome, o rei Milinda sentiu-se intimidado, inquieto, e perguntou a Devamantyia:

― Ele está realmente em condições de discutir comigo?

― Sim, pode discutir com os guardiões do mundo: Indra, Yama, Varuna, Kuvera, Prajapati, e até mesmo com o próprio Brahma. Sendo assim por que não poderá discutir com um homem?

― Mandem-lhe então um mensageiro. ― Ordenou o rei.

Devamantyia mandou um mensageiro informar Nagasena de que o rei Milinda pretendia vê-lo. E o monge disse ao mensageiro que o rei poderia ir até onde ele, Nagasena, estava. O rei subiu ao seu carro, acompanhado da escolta, e foi à moradia do monge. Nagasena estava sentado no pavilhão, em companhia de oitenta mil monges. Milinda perguntou a Devamantyia:

― Que gente é essa?

― São os companheiros do monge Nagasena. O rei intimidou-se. Como um elefante acuado pelos rinocerontes, ou uma naga pelos garudas, um chacal pelas jiboias, um urso pelos búfalos, uma rã perseguida por uma cobra, uma gazela por um tigre, uma serpente diante de um hipnotizador de serpentes, um rato à frente de um gato, um demônio sob o domínio de um exorcista, assim ficou o rei inquieto. Assim como a lua na boca de Rahu, uma cobra dentro de um cesto, um passarinho na gaiola, um peixe na rede de pesca, um homem atravessando uma floresta onde há muitas feras, um gênio diante de um Vessavana, como um Deva cuja vida está no fim, medroso, alarmado, ansioso, agitado, perplexo, triste, perturbado, Milinda pensou: ― Desejo que esse homem não me vença! Depois, criando coragem, disse a Devamantyia:

― Não me diz quem é o monge Nagasena. Eu mesmo irei reconhecê-lo.

Ora, Nagasena era mais moço do que os quarenta mil monges que estavam à sua frente e mais velho do que os quarenta mil monges que estavam atrás. Milinda olhou todos aqueles monges e viu Nagasena sentado no meio deles, parecendo um leão de juba espessa, calmo, sem medo, e logo o reconheceu.

― É aquele. ― Disse a Devamantyia.

― Sim, majestade. É ele mesmo. E o rei ficou satisfeito por ter reconhecido o monge, sem que lho mostrassem. Mas, fitando-o, sentiu-se outra vez tímido, nervoso. Por isso se diz: “Virtuoso, dominado por uma suprema força de vontade, apareceu Nagasena diante do rei, que disse: Vi muitos oradores, travei muitas discussões, mas nunca estive medroso e trêmulo como hoje. Sem duvida, hoje serei vencido, e a vitória de Nagasena, desde já, está me perturbando.”


Livro II - Características

Capítulo 1: A Inexistência do Indivíduo


O rei Milinda aproximou-se de Nagasena, cumprimentou-o e sentou-se ao seu lado. Nagasena retribuiu-lhe os cumprimentos, estabelecendo-se assim entre ambos disposições amistosas.

Perguntou-lhe o rei:

― Qual o seu nome, Venerável?

― Chamam-me Nagasena. Mas, ó rei, os pais dão aos filhos um nome: Nagasena, Surasena, Virasena, Sihasena. No entanto, esses nomes nada mais são do que apelativos, expressões comuns sob as quais não existe indivíduo.

― Ouçam todos! Os meus quinhentos escudeiros e os oitenta mil monges! Diz Nagasena que o nome não exprime a existência do indivíduo. Mas, ó venerável, se não há indivíduo, quem lhe dá roupas, alimentos, moradia, remédio? Quem se serve dessas coisas? Quem pratica a virtude? Quem medita? Quem realiza o Caminho, o Fruto, o Nirvana? Quem pratica o assassínio, o roubo, a impureza, a mentira, a embriaguez? Quem comete as cinco faltas? Se for assim, não há bem, nem mal, nem autor, nem idealizador, nem praticante de atos benéficos ou perniciosos. Não há fruto, amadurecimento de ações boas ou más. Se não existe o teu assassino, nesse caso não haverá homicídio. Não há professores, nem preceptores, nem formatura. Quando dizes: “meus companheiros me chamam Nagasena”, quem é esse Nagasena a quem te referes? Os cabelos são Nagasena?

― Não, Maharajá!

― São os pelos, as unhas, os dentes, a pele, a carne, os tendões? Nagasena são os ossos, a medula, os rins, o coração, o fígado, a epiderme, o baço, os pulmões, os intestinos, o mesentério, os alimentos não digeridos, os resíduos da digestão, a bile, a fleugma, o pus, o sangue, o suor, a gordura, as lágrimas, o óleo da pele, a saliva, o muco nasal, a urina, o cérebro?

― Não, Maharajá!

― Ou então há de ser a forma, a sensação, a percepção, a consciência?

― Não, Maharajá!

― Então será a reunião dos cinco agregados: forma, sensação, percepção, formações mentais, consciência?

― Não, maharajá!

― É algo distinto dos cinco agregados?

― Não, Maharajá!

― Inútil interrogar. Não estou vendo Nagasena. Que é Nagasena? Um vocábulo, nada mais. Tua palavra é falsa e mentirosa! Não existe Nagasena.

― Rei, és delicado como um príncipe. És muito delicado. Se, ao meio dia, fores pisar a terra quente, quando a areia queimar a sola dos pés, e estes se ferirem nos gravetos e pedrinhas do chão, teu corpo cansado, exausto, tu te sentirás indisposto. Vieste a pé ou de carro?

― Não viajo a pé, Venerável. Vim no meu carro.

― Se vieste em teu carro, Maharajá, dá-me a sua definição. O timão é o carro?

― Não, Venerável.

― Serão o eixo, as rodas, a caixa, os suportes da cobertura, o jugo, as rédeas, o aguilhão?

― Não, Venerável.

― Será o conjunto de todas essas coisas?

― Não, Venerável.

― Seria alguma coisa diferente de tudo isso?

― Não, Venerável.

― Inútil perguntar ao rei. Não vejo carro. Que é um carro? Um vocábulo, nada mais. Tua palavra, Maharajá, é falsa, mentirosa. Não existe carro. Tu és o primeiro entre os reis do Jambudipa. De quem tens medo para mentires assim? Ouçam todos os quinhentos secretários do monarca e os oitenta mil monges: o rei Milinda afirmou ter vindo de carro até aqui. Convidado a definir o carro, não pôde provar a existência do veículo. Pode-se admitir isso? Os quinhentos secretários aplaudiram Nagasena e disseram ao rei Milinda:

― Maharajá, responde agora, se puderes.

O rei replicou:

― Não estou mentindo, venerável. É pelo timão que se inicia a designação, a noção comum, a expressão habitual, o nome “carro”.

― Muito bem, Maharajá! Sabes agora o que é o carro. Assim também é pelos cabelos e pelas outras partes do corpo humano que se inicia o apelativo, a noção comum, a expressão corrente, o nome Nagasena. Mas, na realidade, não há indivíduo. A monja Vajira disse na presença do Buda: “Assim como a combinação das peças dá lugar à palavra carro, assim também a existência dos skandas dá lugar ao convencional ser vivo”.

― Maravilhoso, Nagasena! Respondeu a todos os pontos da minha pergunta. Se o Buda estivesse aqui, ele te aplaudiria. Muito bem, muito bem, Nagasena!


Capítulo 2: O Número


― Quantos anos tens de vida monástica, Nagasena?

― Sete.

― Que é sete? Tu és sete ou o número é sete? Nesse momento, estendia-se pelo chão e sobre uma jarra de água a sombra do rei com os seus ornamentos. Perguntou-lhe então Nagasena:

― Eis a tua sombra, Maharajá, sobre o chão e sobre a jarra de água. Quem é o rei? Tu ou a tua sombra?

― O rei sou eu e não a minha sombra, que se projeta por minha causa.

― Assim também, Maharajá, sete é o número dos anos, não eu de quem se origina o sete, assim como a sombra vem de ti.

― Maravilhoso, Nagasena! Admirável, Nagasena!


Capítulo 3: As Diversas Maneiras de Discussão


― Queres discutir comigo, Venerável?

― Sim, se discutires À maneira dos sábios. Não, se discutires como os reis.

― Como discutem os sábios?

― Quando em uma discussão nós somos enlaçados, nós nos soltamos do laço. Nós aplicamos uma critica e recebemos outra. Ora estamos perdendo, ora estamos ganhando. Os sábios não se irritam. É assim que eles discutem.

― E como discutem os reis?

― Os reis expressam uma opinião. Se alguém contesta, eles mandam aplicar-lhe algumas pauladas. É assim que os reis discutem.

― Então vou discutir como os sábios e não como os reis. Sua Reverência pode discutir comigo livremente, como faria com um outro monge, um noviço, um seguidor leigo, ou serviçal do monastério. Não tenha nenhum receio.

― Está bem, Maharajá.


Capítulo 4: A Escaramuça


― Venerável Nagasena, eu te interrogarei.

― Interroga, Maharajá.

― Já te interroguei.

― E eu já te respondi.

― Que me respondeste?

― Que me interrogaste?


Capítulo 5: Os Preparativos da Entrevista


O rei Milinda pensou consigo: “Este monge é sábio e capaz de discutir comigo. Vou interrogá-lo sobre muitas questões e o sol se deitará antes de terminar. Seria melhor discutirmos no palácio.” Recomendou a Devamantyia: “Avise a Sua Reverência que a discussão se realizará em meu palácio.” O rei Milinda levantou-se, despediu-se e montando o cavalo afastou-se, repetindo o nome de Nagasena, como se esse nome fosse uma lição para ser decorada. No dia seguinte pela manhã, Devamantyia, Anantakaya, Mankura, Sabbadina, apresentaram-se ao rei e perguntaram-lhe:

― Majestade, o venerável Nagasena pode vir?

― Sim, pode.

― Em companhia de quantos monges?

― Quantos quiser.

Observou Sabbadina:

― Ele pode trazer dez.

Repetiu o rei:

― Venha com quantos quiser.

Sabbadina repetiu a informação e o rei disse:

― Tudo já foi arranjado. Ele venha com quantos quiser. Eu já o disse, mas Sabbadina parece não estar de acordo. Não podemos oferecer comida a monges?

Sabbadina ficou calado. Então, Devamantyia, Anantakaya e Mankura foram falar com Nagasena e disseram-lhe:

― O rei convida-o a ir ao palácio em companhia de tantos monges quantos Sua Reverência quiser. Nagasena vestiu-se, tomou a tigela e o manto e acompanhado de oitenta mil monges entrou em Sagala. Anantakaya, que ia ao lado de Nagasena, perguntou-lhe:

― Venerável, quando eu digo “Nagasena” que é Nagasena?

― E que pensas tu que seja?

― O sopro interior, a alma (jiva), que entra e sai. Isso é Nagasena, segundo penso.

― Neste caso, poderia o homem viver, se o sopro interior depois de sair não voltasse a entrar, ou se, depois de entrar, não saísse?

― Não, venerável.

― Mas, naqueles que sopram em búzios, naqueles que sopram em flautas, o sopro volta aos pulmões? ― Não, venerável.

― Então, por que não morrem?

― Não posso discutir com um lógico, tal como Nagasena. Mas diz-me, Venerável, nesse caso o que ocorre?

― No caso, não é alma, e sim trata-se de propriedades do corpo, chamadas expiração e inspiração.

E o monge então discorreu sobre o Abhidhamma e Anantakaya declarou-se um discípulo leigo.


Capítulo 6: A Finalidade do Cultivo Mental


No palácio real, Nagasena sentou-se no lugar que lhe foi designado. O rei, pessoalmente, serviu ao monge e aos seus companheiros um excelente almoço, dando também a cada um duas vestes e a Nagasena ofereceu três. Depois disse a esse monge:

― Venerável, dez monges podem ficar conosco. Os outros têm liberdade para se retirarem.

Quando Nagasena veio sentar-se ao lado do monarca, perguntou-lhe o rei:

― Venerável, de que iremos falar?

― Estamos buscando um objetivo.

― Está bem. Então, qual a finalidade do seu afastamento do mundo? Para o Venerável, qual o seu último objetivo?

― A extinção da dor presente, sem surgir nenhuma outra. Nosso objetivo último: o Nirvana absoluto.

― E todos que se retiram do mundo têm esse objetivo?

― Não. Alguns buscam o Nirvana. Outros temem o rei ou os assaltantes. Outros não desejam pagar suas dívidas. Enfim, alguns se afastam do mundo induzidos por um pensamento correto, enquanto outros o fazem para terem um meio de vida.

― E tu, Venerável, saíste do mundo para alcançar o Nirvana?

― Eu era ainda um menino, sem a plena consciência do meu objetivo, quando dizia comigo mesmo: “Os ascetas budistas são sábios. Eles me instruirão.” Agora, tendo recebido a necessária instrução, vejo qual o objetivo do afastamento do mundo.

― És hábil, Nagasena.


Capítulo 7: A Causa dos Renascimentos


― Nagasena, é possível um homem morrer e não renascer?

― Um renasce, outro não. Renasce quem está cheio de paixões. Quem está livre delas não renasce.

― E tu, venerável, vais renascer?

― Se não me livrar do apego, renascerei. Se vencer o apego, não renascerei.


Capítulo 8: Os Meios de Libertação


― É pela atenção concentrada que nos livramos do renascimento?

― Pela atenção concentrada, pela sabedoria, por outros estados salutares da mente.

― Mas a atenção concentrada não é a mesma coisa que a sabedoria?

― Não! São diferentes. A atenção concentrada acha-se nas cabras, nos carneiros, nos bois, nos búfalos, nos camelos, nos burros. Jamais a sabedoria.


Capítulo 9: A Atenção Concentrada e a Sabedoria


― Qual é a característica da atenção concentrada e a da sabedoria?

― Uma define-se pela reunião. Outra pela cisão.

― Como é isso? Dá um exemplo.

― Já tens visto os ceifadores, Maharajá?

― Sim.

― Como eles ceifam a cevada?

― Com a mão esquerda agarram um feixe de talos e com a foice na mão direita cortam o feixe.

― Maharajá, mediante a atenção concentrada, o asceta reúne os processos da inteligência e mediante a sabedoria, ele corta as paixões. Por isso, uma é figurada pela reunião e a outra pela cisão.


Capítulo 10: A Virtude


― Falaste, Nagasena, em “outros estados salutares da mente ”. Quais são?

― A virtude, a fé, a energia, a reflexão, o recolhimento.

― Qual é a característica da virtude?

― A virtude define-se como base. Ela é a base de todos os estados salutares da mente: faculdades, forças, elementos da intuição suprema, meditações, esforços, condições do poder mágico, êxtases, emancipações, recolhimentos, conquistas mentais. Baseados na virtude, não se extinguem os estados salutares da mente.

― Dá uma comparação.

― Assim como todas as espécies de plantas nascem, crescem e desenvolvem-se, apoiando-se no solo, assim é com apoio na virtude que o asceta desenvolve as cinco faculdades: fé, energia, reflexão, recolhimento, sabedoria.

― Dá outra comparação.

― Assim como todos os trabalhos que exigem força física executam-se com apoio no solo, assim é com apoio na virtude que o asceta cultiva as cinco faculdades.

― Outra comparação.

― Para construir uma cidade, o arquiteto começa por limpar o terreno. Arranca os tocos de árvores, o capim, aplaina o chão, depois desenha o traçado das ruas e praças. Assim também, apoiando-se na virtude, o asceta cultiva as cinco faculdades.

― Dá-me ainda outra comparação.

― O acrobata manda limpar o chão, antes de exibir-se ao público, a fim de executar os seus saltos sobre um terreno macio. Assim também procede o asceta para o cultivo das cinco faculdades. O Bem-aventurado disse, ó rei: “Apoiando-se na virtude, cultivando o pensamento e a sabedoria, o sábio, o monge fervoroso e prudente pode extirpar a erva daninha da existência. Assim como a terra é a base dos seres vivos, esse é o fundamento de todo progresso no bem. Este é o ponto de partida de todo o ensinamento do Buda. Este é o Código das regras do excelente Patimokka.”


Capítulo 11: A Fé


― Venerável, qual é a característica da fé?

― A purificação e o impulso.

― De que modo a purificação é característica da fé?

― A fé elimina os obstáculos, quando se eleva. Quando se afastam os obstáculos, a mente torna-se límpida e pura. Assim a purificação é característica da fé.

― Dá-me outra comparação.

― Imagina um grande rei com todo o seu exército em marcha. Os elefantes, os cavalos, os carros agitam a água do ribeiro que atravessam, que fica misturada com areia e barro. Depois da passagem do exército, o rei pede que lhe tragam água para beber. Supõe, Maharajá, que os servidores reais atirem na água uma pedra que serve para limpar água. Que acontece? Afastam-se as pedrinhas, as ervas aquáticas, a lama deposita-se no fundo do leito do ribeiro. Então a água torna-se límpida, pura, e os serviçais do rei podem levá-la ao monarca. Ora, a água é a mente, os serviçais são os monges, e as pedrinhas, as ervas, a lama são as paixões. A pedra que purifica a mente é a fé. Esta elimina os obstáculos e a mente torna-se límpida e pura. É assim que a purificação é característica da fé.

― E o impulso?

― Vendo outros sábios libertos, o asceta avança para conquistar o estado de quem entrou no caminho (sopanna); tem apenas mais uma existência terrestre a atravessar (sakadagami); ou não vai mais voltar à terra (anagami); ou ao falecer deve entrar no nirvana absoluto (arhat). O sábio então avança para realizar aquilo que outros realizaram.

― Dá outra comparação.

― Uma grande chuva cai no alto de um monte. A água escorre pelos flancos do monte e depois de encher buracos, valas, bueiros, ela segue por um ribeiro e vai fazer um rio transbordar. Aproxima-se muita gente que deseja atravessar o rio, mas não sabe se ele está muito fundo ou raso e permanece indecisa em uma das margens. Aparece então um homem que, consciente da sua força e do seu poder, pula na água para atravessar o rio. Toda aquela gente imita aquele homem e imitando-o entra no leito do rio e nada até chegar à outra margem. Assim procede o asceta. Vendo outros sábios se libertarem, ele se esforça por vencer os sucessivos degraus do cultivo mental. Por isso, a fé caracteriza-se pelo impulso. Diz o Bem-aventurado no Samyuttanikaya: “Pela fé, ele atravessa a corrente; pela fé, ele atravessa o oceano; pela energia, ele vai além do sofrimento; pela sabedoria, ele é purificado.”


Capítulo 12: A Energia


― Nagasena, qual é a característica da energia?

― O apoio. Apoiados nela, os estados salutares da mente não se abatem.

― Dá-me uma comparação.

― Se se apoia uma parede, quase caindo, em uma forte escora de madeira, a parede não vai ao chão. Assim, a energia caracteriza-se pelo seu apoio. Sustentados por ela, não se abatem os estados salutares da mente.

― Outra comparação, ainda.

― Quando um pequeno exército é obrigado a recuar, diante de um grande exército, se o rei enviar tropas de apoio, o exército inimigo recuará. Portanto, a característica da energia é o apoio. Ensinou o Bem-aventurado: “Monges! O discípulo enérgico elimina o que é pernicioso, desenvolve o que é salutar, elimina o que é censurável, desenvolve o que é irrepreensível e mantém-se puro”.


Capítulo 13: A Reflexão


― Nagasena, qual é a característica da reflexão?

― A enumeração e a admissão.

― A enumeração? Como?

― A reflexão enumera os estados da mente: salutares ou perniciosos; censuráveis ou irrepreensíveis; vis ou excelentes; negros ou brancos; todos com as suas subdivisões. Mediante a reflexão, descobrem-se as quatro meditações, os quatro esforços, as quatro bases do poder mágico, as cinco faculdades, os sete elementos de Bodhi, o nobre caminho de oito pistas, a tranquilidade, a clarividência, a ciência, a libertação. Em consequência desse exame, o asceta procura os estados da mente que se deve procurar, evita aqueles que importa evitar, pratica os outros que têm de ser praticados, rejeita aqueles que devem ser rejeitados. Assim a reflexão tem como característica a enumeração.

― Dá uma comparação.

― O tesoureiro de um monarca, todos os dias, lembra ao rei a sua riqueza, dizendo-lhe: “Sua Majestade possui tantos elefantes, tantos cavalos, tantos carros, tantos infantes, tais e tais bens... Não esqueça, Majestade!” Assim, a reflexão enumera os estados da mente. A característica da reflexão está portanto na enumeração.

― E a admissão?

― Assim como o ministro de um monarca sabe quais são os seus súditos bons ou ruins, aceitando uns a serviço do rei, rejeitando outros, assim funciona a reflexão. O Bem-aventurado aconselhou: “A reflexão serve para toda gente”.


Capítulo 14: A Concentração


― Nagasena, qual é a característica da concentração?

― A supremacia. Os estados salutares da mente subordinam-se à concentração. Esta é o cume do qual esses estados mentais são as encostas, as ladeiras e o sopé.

― Dá uma comparação.

― Quando um monarca mobiliza o seu exército para a guerra, os elefantes, os cavalos, a infantaria, estão sob seu comando, obedecem às suas ordens. Dá-se o mesmo com a concentração. Recomendou o Bem-aventurado: “Monges, cultivai a concentração. O homem, na concentração, vê a realidade”.


Capítulo 15: A Sabedoria


― Nagasena, quais são as características da sabedoria?

― A cisão, à qual já me referi, e a iluminação.

― Como?

― A sabedoria dissipa as trevas da ignorância, produz a clareza da ciência, faz brilhar a luz do conhecimento, revela as Nobres Verdades. Por ela o asceta adquire o perfeito entendimento da impermanência, da inquietação mental e da impersonalidade.

― Dá uma comparação. ― Se entrarmos em uma casa com uma luz acesa, a luz dissipando as trevas produz a claridade no interior da casa, de forma que se mostram as coisas que estão lá. Assim procede a sabedoria.


Capítulo 16: Os Estados Salutares da Mente


― Nagasena, esses diversos estados salutares da mente produzem um mesmo resultado?

― Sim, todos têm por objetivo destruir as paixões.

― Como assim? Dá um exemplo.

― Assim como os diversos elementos de um exército concorrem para um só resultado, a derrota do inimigo, do mesmo modo os diferentes estados salutares da mente têm um único objetivo: a destruição das paixões.


Capítulo 17: A Cadeia dos Renascimentos


― Nagasena, quem renasce? A mesma pessoa ou outra?

― Nem a mesma pessoa, nem outra.

― Dá-me uma comparação.

― Quando criança frágil, eras como hoje, que estás grande?

― Não, Venerável. Eu era outra pessoa.

― Sendo assim, não tens nem pai, nem mãe, nem preceptor. Não pudeste aprender as artes, adquirir virtudes, sabedoria! Haverá pois uma mãe para cada fase do embrião, uma mãe para a criança, outra para o homem feito. Quem se instrui é uma pessoa, quem se instrui é outra. Um é o autor do crime, outro o indivíduo a quem se cortam as mãos e os pés.

― De modo nenhum, Venerável. E tu que dizes?

― Já fui criança e agora sou homem, eu mesmo. O ser humano, em suas diversas fases, tem sua unidade no corpo.

― Dá uma comparação.

― Quando se acende um facho, este pode queimar a noite inteira?

― De certo.

― E a chama da última noite é a mesma da segunda, esta a mesma da primeira?

― Não.

― Há então um facho diferente em cada noite?

― Não, o mesmo facho queimou a noite inteira.

― Assim, Maharajá, o encadeamento dos Karmas é contínuo. Um surge, quando o outro desaparece. De algum modo, não há nem antecedente, nem consequente. Portanto, não é o mesmo, nem o outro, que acusa o último ato de consciência.

― Dá outro exemplo.

― Quando o leite transforma-se em coalhada, manteiga fresca, depois manteiga refinada, pode-se dizer que o leite fresco é o mesmo que a manteiga ou a manteiga refinada?