CHOCOLATE E BUDISMO?



Sukhí Hôtu!


Principalmente aqui no Brasil e no Ocidente, de modo geral, as pessoas não conhecem a rotina da vida monástica dentro da Tradição Theravada. Muita gente não sabe, por exemplo, que nós monges, desde o tempo do próprio Buddha, devemos mendigar nosso próprio alimento, saindo bem cedo, descalços, levando nossas tigelas para, caminhando pelas ruas, recebermos a doação de comida que as pessoas, esperando nas portas de suas casas, nos oferecem.


Na verdade, essa ronda em busca de alimento, é um ritual importantíssimo, chamado PINDABÁTA, que deve ser praticado seguindo regras rígidas de silencio absoluto, olhar mantido no chão o tempo todo, velocidade baixa e constante e atenção plena na respiração enquanto caminhamos. Pindabáta não é um “passeio matinal” nem uma caminhada para pedir comida – não pedimos nada! Apenas caminhamos e, se houver pessoas à espera da passagem de nós monges, recebemos o que elas doarem, sem dizer nada, sem pedir nem agradecer. Simplesmente recebemos. Nem ao menos podemos olhar no rosto de quem está doando! Levantar a tampa da tigela, receber o alimento, fechar a tigela e seguir adiante. Se não houver, durante toda a ronda, qualquer pessoa que nos doe algo, voltamos para o Templo e ficamos sem comida ou temos que nos virar comendo biscoito ou qualquer outra coisa que, por acaso, tenha sobrado!


A regra é bem clara: Devemos comer entre o nascer do Sol e o meio-dia. Após o meio-dia, só podemos fazer qualquer refeição em caso de doença, quando a regra é flexibilizada, já que o doente precisa se alimentar bem. Mas, e se a fome for muita por termos coletado pouco ou quase nenhum alimento? Realmente temos que sentir o desconforto da fome até o nascer do Sol no dia seguinte? Não seria errado fazer isso, já que o Buddha sempre foi contra a prática de regras radicais e que causem sofrimento? Nos casos em que estamos realmente com muita fome, a ponto de no perturbar a prática do estudo ou da meditação, há alguns alimentos que podem nos ajudar e são permitidos para consumo, às 17 horas.


Pequenos pedaços de CHOCOLATE AMARGO (sem leite!!), CUBINHOS DE QUEIJO BRANCO, PASSAS ou outras frutas desidratadas, YOGURTE e CHÁ SEM AÇÚCAR são os alimentos que nós monges podemos consumir quando a refeição antes do meio-dia não foi suficiente para saciar a fome.

Claro que, na época do Buddha, o CHOCOLATE AMARGO não existia e esse item foi adicionado na era moderna, mas, todos os demais alimentos já existiam na região onde o Buddha viveu e ele, com sua Sabedoria de um homem totalmente Iluminado, escolheu esses alimentos permitidos por uma boa razão. São alimentos que têm uma certa acidez que, ao chegarem ao estômago, combate a sensação de acidez do próprio estômago, “enganando” a sensação de fome. Assim, embora alguns pedacinhos de chocolate amargo e os outros alimentos não matem a fome, pelo menos eliminam a má sensação, ajudando nós monges a aguentarmos a falta de alimento até o dia seguinte.


Claro que a prática de PINDABÁTA e todas essas regras que eu, como todos os monges, segui durante os anos que morei na Ásia, não são possíveis de se aplicar no Brasil. Pela mentalidade do brasileiro, ninguém vai preparar comida para mim e me esperar na porta de casa para doar quando eu caminhar pelas ruas. Infelizmente, desde que voltei para o Brasil, nunca pude contar com esse tipo de doação e tenho que me conformar em comprar alimentos, cozinhar e me alimentar do jeito que posso. Além disso, a prática de PINDABÁTA é exclusiva da Tradição Theravada, que é a única que segue os Ensinamentos Originais do Buddha, exatamente do modo como ele viveu e nos orientou. O Buddhismo Chinês, o Buddhismo Japonês (Zen, por exemplo) e as Tradições do Buddhismo Tibetano, são muito distantes da verdade ensinada pelo Buddha e, portanto, não seguem essa regra de coletar alimento e não comerem após o meio-dia. Mesmo assim, fica a dica para quem desejar doar alimentos a um Templo da Tradição Theravada – barras de chocolate amargo, assim como os outros itens que mencionei, podem parecer pouco, mas são de grande utilidade para os monges que tentam manter a regra de não se alimentarem após o meio-dia.


Fiquem todo em Paz e protegidos!


Ajahn Sunanthô Therô

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