IGUALDADE DE GÊNERO NO BUDISMO



UMA ENTREVISTA COM O VENERÁVEL AJAHN BRAHM


Dajia hao!


O Venerável Adjáan Brahm, que várias vezes menciono aqui, sempre foi um defensor e batalhador pela causa da ORDENAÇÃO DE MONJAS dentro da Tradição Theravada à qual pertenço! Ele não mede esforços para divulgar e incentivar a aceitação de monjas e tem alcançado sucesso na ordenação de mulheres na Austrália e, aos poucos, também na Inglaterra. Esta semana, o Venerável Brahm recebeu uma premiação da Ordem da Austrália. A entrevista ao Ven. Tchanda sobre esse assunto, eu posto aqui, traduzida por mim:


Venerável Tchanda: Saindo do forno! Apenas duas horas atrás, o Ven. Adjáan Brahm me concedeu esta entrevista sobre o assunto de sua premiação como Membro da Ordem da Austrália. Transcrevo abaixo a entrevista:

V.T.: Como se sentiu ao receber o prêmio? A.B.: Primeiramente, eles me perguntaram: “você quer receber o prêmio?” e eu o aceitei. Então, a primeira reação foi, “por quê você quer aceitar isso, você é um monge buddhista (budista), é isso que fazemos, nós ensinamos e servimos, não se espera de nós que recebamos qualquer honraria!” Mas em seguida veio a razão, que foi a igualdade de gênero. Igualdade de gênero ainda não foi alcançada no mundo buddhista – demos um passo grande na Austrália e achei que poderia ser uma maravilhosa declaração, que vai repercutir, para mostrar que o mundo ocidental (e muitos outros mundos) realmente quer ter igualdade de gênero, especialmente no Buddhismo (Budismo) e nas lideranças buddhistas.

Ainda me lembro de um monge veterano (não vou citar o nome) que disse que a Tailândia não estava preparada para a ordenação de Bhikshunís (monjas). Eu disse “não tem nada a ver com a Tailândia; estas monjas são ordenadas na Austrália, na Inglaterra e na América. América, Inglaterra e Austrália “não estão prontas” para continuarem a discriminação de gênero. Já tiveram o bastante.”


V.T.: Qual a importância e o significado desse prêmio para você pessoalmente e para o Buddhismo como um todo? A.B.: Para mim, pessoalmente, nenhuma. Para o Buddhismo como um todo, os outros devem decidir.

V.T.: Quais foram alguns dos sacrifícios que você fez para dar oportunidade de ordenação completa às mulheres? A.B.: Primeiramente, me levantar e perder muitos de meus amigos e ficar isolado, mas ainda tendo uma boa quantidade de apoio das pessoas aqui em Perth que entenderam o que estava acontecendo, em vez de julgarem sem muito entendimento ou conhecimento de qual era a situação. Também, esse sacrifício significou trabalho extra.Sacrificar o descanso em prol de mais trabalho.

V.T.: Você ainda tem mais trabalho por causa disso tudo? A.B.: Bem, está diminuindo. Estabelecendo monastérios para Bhikshunís (monjas) em diferentes partes do mundo. Não tem muita gente fazendo isso. Então, se alguém quiser me ajudar e me deixar passar mais tempo ensinando e ajudar a manter minha saúde realmente forte por muitos anos, essas pessoas deveriam dar apoio às monjas de mosteiros como o Anukampá, porque uma coisa que eu sempre soube o tempo todo é que, ao mesmo tempo que você tem responsabilidades de cuidar dos monges, Bhikshús, também tem a responsabilidade de treinar as Bhikshunís por muitos anos. Meu trabalho não é simplesmente realizar a cerimônia (de ordenação monástica), mas de fornecer os quatro requezitos de doação de alimento, vestuário, alojamento e remédios. Esta é minha responsabilidade, principalmente alojamento, que realmente é muito difícil de arranjar. É por isso que eu mantenho a muitos anos o levantamento de fundos e desenvolvimento do monastério Dhammasára Bhikkhuní e agora gasto muito tempo e esforço para angariar fundos e desenvolver o Projeto Anukampá Bhikkhuni. Então, se as pessoas quiserem me ajudar e diminuírem meu fardo, devem começar a doar. Em vez de monastérios luxuosos, que têm ouro ou prata ou grandes saguões que nem são usados, apenas mantenham algo em andamento para as Bhikshunís do Reino Unido.

V.T.: Vindo de uma Tradição conservadora, onde as mulheres não tinham tido acesso à ordenação completa por cerca de mil anos, o que lhe convenceu de que isso poderia ser feito legalmente, na perspectiva do Vínaya (o Código de Leis estabelecido pelo Buddha para os monges)? A.B.: É porque eu sou mais tradicional que a maioria dos monges na Tailândia – e com isso quero dizer que não sigo os comentários sobre o Buddha, eu não uso a tradição tailandesa – recorrendo ao Vínaya como ensinado pelo Buddha, em Pali. Eu tenho um bom cérebro. Treinado em Cambridge eu cheguei ao nível O em Latim e em Pali não foi diferente, então foi muito fácil para mim estudar Pali, me tornar bem confortável com isso e também para usar o Vínaya e descobrir que não há impedimentos para isso. Eu fui mais tradicional que os outros. Eu ainda me considero um buddhista muito, muito tradicional. Eu sigo o Vínaya e o Dharma como ensinado pelo Mestre Buddha em Pali em vez de uma ou outra tradução afastada, já que traduções nunca são tão boas quanto a palavra original, então eu uso o original para mostrar que isso foi permitido no tempo do Buddha e é permitido hoje, não estamos usando brechas, isso é possível. É claro, eu acho que você sabe que nunca houve problema em legitimar a ordenação. Foram aceitas para serem legitimadas. Foi sempre algo como “Nós não queremos, estamos perdendo terreno. Isso não está de acordo com nossa tradição moderna, do Buddhismo Tailandês.” No Buddhismo antigo, era permitido e é fácil trazer isso de volta.


V.T: Quais os benefícios que você tem ganho em dar a ordenação completa a monges? A.B.: Ontem à noite eu ordenei dois candidatos – dois jovens. Parte de meu trabalho é dar a eles um pequeno “anussásana”, um Ensinamento e uma frase que eu comentei em uma conversa de 15 minutos sobre “sila paribhavitto samadhi mahaphalo hoti mahanissamso" (só para mostrar que eu sou realmente um monge tradicional e sei falar Pali), que significa que quando a sua meditação é apoiada nos Preceitos, pelos Preceitos de Bhikshú e Bhikshuní, ela é de grande poder e benefício. As pessoas podem reclamar “Ah… minha mediação não é tão boa, eu tenho este problema”, uma das razões é os Preceitos. Sua virtude – sila – a conduta não é forte o bastante. Isso não é a minha interpretação, é direto dos Ensinamentos do Buddha. É uma das razões pelas quais se você é um Bhikshú ou Bhikshuní, seus Preceitos (se você os conservar) são muito mais fortes do que os de qualquer leigo, o que significa que você tem mais poder para desenvolver uma meditação mais profunda.

V.T.: Quais são as áreas que podem ser mencionadas para tornar as coisas mais igualitárias para as mulheres em termos de apoio e oportunidades? A.B.: Eu acho que basta dar a elas a chance de falar. Uma vez que tiverem a oportunidade, elas vão fazer isso muito bem. Assim, já temos monastérios de Bhikshunís Theravada com ordenação completa em lugares como a Austrália e um começando logo, eu espero, um grande, na Inglaterra e em muitos outros países e quando você realmente os vê funcionando, é muito inspirador. Elas realmente tendem a manter seus Preceitos mais fortemente e inspiradoramente que os monges do templo ao lado e é por isso que os monges de lugares (por favor, me desculpe) dizem, na Tailândia: “Ah! Isso não!” Estamos sendo guiados pela conduta, pureza e renúncia dessas Bhikshunís!

V.T.: Há algum protocolo tradicional que deva ser alterado para refletir o respeito completo e o valor de uma Bhikshuní como base de uma ordenação igualitária, que possa ser obeservado e inspire a comunidade leiga? A.B. É aí que devemos recorrer ao Vínaya Pitaka (a parte das Escrituras que trata do Código Monástico) com os Sutras (Escrituras) e há algumas anomalias lá. Os estudiosos – não apenas eu – devem dar uma olhada profunda nessas anomalias e perceber que há bastante o que remexer, a interpretação de que não é preciso ter qualquer sentido de superioridade, em lugar algum, dentro das tradições de Bhikshú e Bhikshuní. Isso está mudando, mas infelizmente há muita inércia. A mudança virá, mas não rápida o bastante para a maioria. E não são mudanças por causa dos valores ocidentais, mas sim as que já estavam dentro do Vínaya e dos Sutras, que as pessoas não notavam que estão lá. Coisas simples (isso é mais coisa de monge); as pessoas às vezes reclamam de eu apertar a mão de mulheres. E não há nada no Vínaya ensinado pelo Buddha que seja contra isso, de maneira alguma. Mesmo assim (as pessoas dizem) “Oh! Não, não, não! Isso é muito ruim, você não pode fazer isso!” Onde?? Então, tem pequenas coisas como essa, que não deveriam – se os monges tivessem um entendimento mais próximo do Vínaya – ter problema algum.

V.T. : Como os monges podem facilitar as oportunidades para as Bhikshunís para receberem força e se tornarem mestras visíveis e efetivas do Dharma (o Ensinamento do Buddha)? A.B. Dando a elas mais oportunidades de ensinarem. Dando apoio a elas na fase inicial, exatamente como estou fazendo e exatamente como você apoiaria um novo monastério ou templo que esteja sendo aberto na sua cidade. Há muitos visitantes leigos que podem doar isso ou aquilo, até mesmo uma casa ou parte de um testamento, qualquer que seja, para apoiar uma causa realmente boa. Dê uma olhada nisso – há muitos monastérios para Bhikshús no Reino Unido, então, quantos monastérios para Bhikshunís tem lá? (Nenhum). Então, está na hora de mudar isso realmente. Se os monastérios de Bhikshús começarem a apoiar os monastérios de Bhikshunís – quero dizer, pedindo aos seguidores leigos para arrecadarem fundos para a construção de monastérios de Bhikhunís em vez ampliarem seus próprios monastérios – que maravilhoso isso seria! E, claro, podemos aqui citar o Buddha: o maior ato de generosidade, o maior de todos os bons karmas que se pode praticar, não é oferecer comida ao Buddha, mas sim aos monges seguidores do Buddha, tanto quando o Buddha ainda estava vivo quanto depois que ele morreu. O melhor de todos os atos de bom karma é doar a uma Comunidade Monástica dupla, de Bhikshús e Bhikshunís, com doações compartilhadas.


Traduzido do Inglês por Monge Wu Hai Shifu

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