MADHUPINDIKA SUTRA: O ENSINAMENTO DA BOLA DE MEL



Neste Sutra, vemos uma clara explicação e por isso, aqui vai o estudo dele, com explicações entre parênteses e com o uso de linguagem simplificada. Aguardo comentários de todos!


(Fonte: Acesso ao Insight)


MADHUPINDIKA SUTRA

MAJJHIMA NIKAYA 18 A BOLA DE MEL


1. Assim me foi transmitido oralmente. Em certa ocasião o Buddha estava no país dos Shakyas em Kapilavashtu (o Reino onde o Buddha nasceu e do qual deveria ser herdeiro), no Parque de Nigrodha.

2. Então, ao amanhecer, o Buddha se vestiu e tomando a tigela e o manto externo, foi até Kapilavashtu para esmolar alimentos. Depois de haver esmolado em Kapilavashtu e de haver retornado, após a refeição, ele foi até o Grande Bosque para passar o resto do dia e entrando no Grande Bosque sentou-se à sombra de uma pequena árvore.

3. Dandapani (significa “bengala na mão” era um jovem arrogante que andava com uma bengala de ouro, só para se exibir e amigo de Devadatta, o primo e inimigo do Buddha), o Shakya, enquanto caminhava e perambulava fazendo exercício, também se dirigiu ao Grande Bosque e foi até a pequena árvore onde o Buddha se encontrava e ambos se cumprimentaram. Quando a conversa cortês e amigável havia terminado, ele ficou em pé a um lado e apoiando-se sobre a sua bengala perguntou ao Buddha: "O que o monge afirma, o que ele proclama?" (Dandapani fez essa pergunta de modo arrogante e só para “testar” o Buddha)

4. "Amigo (“Ávussô”, em Pali), eu afirmo e proclamo um Ensinamento tal onde a pessoa não tem rixa com ninguém no mundo, com os seus Dêvas, Maras e Brahmás, esta população com os seus monges e brâmanes, seus príncipes e o povo; um Ensinamento em que as percepções não mais sustentam aquele brâmane que permanece desapegado dos prazeres sensuais, sem perplexidades, sem preocupações, livre do desejo por qualquer tipo de ser/existir."

5. Quando isso foi dito, o Shakya Dandapani sacudiu a cabeça, mexeu a língua e ergueu as sobrancelhas até que a testa estivesse enrugada com três linhas. Então ele partiu, apoiando-se na sua bengala. 6. Então, ao anoitecer, o Buddha levantou-se da meditação e foi até o Parque de Nigrodha, sentando-se em um assento que havia sido preparado, relatou aos Bhikshús o que havia ocorrido. Então um certo Bhikshú (monge, “aquele que mendiga o próprio alimento”) perguntou ao Buddha:

7. “Mas, Venerável Senhor (“bhantê”, em Pali), qual é o Ensinamento que o Buddha afirma segundo o qual a pessoa não tem rixa com ninguém no mundo, com os seus Dêvas, Maras e Brahmás, esta população com os seus monges e brâmanes, seus príncipes e o povo? E, Venerável Senhor, como é que as percepções não mais sustentam aquele brâmane que permanece desapegado dos prazeres sensuais, sem perplexidades, sem preocupações, livre do desejo por qualquer tipo de ser/existir?"

8. “Bhikshús, quanto à fonte através da qual as percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental atormentam um homem: se ali nada é encontrado que deleite, que seja bem-vindo, que deva ser mantido, esse é o fim da tendência subjacente ao desejo sensual, da tendência subjacente à aversão, da tendência subjacente às idéias, da tendência subjacente à dúvida, da tendência subjacente à presunção, da tendência subjacente ao desejo por ser/existir, da tendência subjacente à ignorância; esse é o fim do lançar mão de clavas e armas, de rixas, brigas, disputas, recriminações, maldades e mentiras; nesse caso, esses estados ruins e prejudiciais cessam sem deixar vestígio."

9. Isso foi o que o Buddha disse. Tendo dito isso, ele se levantou do seu assento e foi para o abrigo que lhe prepararam.

10. Então, pouco tempo depois do Buddha haver partido, os Bhikshús consideraram: "Agora, amigos, o Buddha levantou-se do seu assento e foi para a seu abrigo depois de expor um resumo sem analisar o seu significado em detalhe. Agora quem irá analisar o significado em detalhe?" Então eles consideraram: "O Venerável Maha Kaccana (“katch-tcháana”) é elogiado pelo Mestre e estimado pelos seus sábios companheiros da vida da Purificação Mental Ele é capaz de analisar o significado em detalhe. E se fôssemos até ele e pedíssemos a explicação do significado disso."

11. Então os Bhikshús foram até o Venerável Maha Kaccana e o cumprimentaram. Quando a conversa cortês e amigável havia terminado, eles sentaram a um lado e contaram o que havia acontecido, adicionando: "Que o venerável Maha Kaccana nos explique isso."

12. O Venerável Maha Kaccana respondeu: "Amigos, é como se um homem que precisa de madeira, procurasse madeira, perambulasse em busca de madeira, pensasse que a madeira deveria ser procurada entre os galhos e as folhas de uma grande árvore que possui madeira, depois de haver passado por cima da sua raiz e tronco. O mesmo ocorre com vocês, Veneráveis Senhores, que pensam que eu deva ser perguntado sobre o significado disso, depois de terem passado pelo Buddha, estando cara a cara com o Mestre. Pois, conhecer, o Buddha conhece; ver, ele vê; ele é visão, ele é conhecimento, ele é o Dhamma, ele é o sagrado; ele é o que diz, o que proclama, o que elucida o significado, o que provê o imortal, o Senhor do Dharma, o Tathágata (um dos títulos do Buddha e o que ele usava para chamar a si próprio!). Aquele foi o momento quando vocês deveriam ter perguntado ao Buddha o significado. O que ele dissesse vocês deveriam se lembrar."

13. “Certamente, amigo Kaccana, conhecer, o Buddha conhece; ver, ele vê; ele é visão … o Tathágata. Aquele foi o momento quando nós deveríamos ter perguntado ao Buddha o significado. O que ele nos dissesse nós deveríamos nos lembrar. No entanto o Venerável Maha Kaccana é elogiado pelo Mestre e estimado pelos seus sábios companheiros da vida da Purificação Mental. O Venerável Maha Kaccana é capaz de analisar o significado, em detalhe, desse resumo dito pelo Buddha. Que o Venerável Maha Kaccana possa expor isso, sem que isso seja um problema."

14. “Então, amigos, ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer." - "Sim, amigo “ (“Amá Ávussô” em Pali. O termo “ávussô” só pode ser usado entre monges! De leigo para monges, se usa “àma bhantê!”)," os Bhikshús responderam. O Venerável Maha Kaccana disse o seguinte:

15. "Amigos, quando o Buddha se levantou do seu assento e foi para a seu abrigo depois de expor um resumo sem analisar o seu significado em detalhe, isto é: 'Bhikshús, quanto à fonte através da qual as percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental atormentam um homem: se ali nada é encontrado que deleite, que seja bem-vindo, que deva ser mantido, esse é o fim da tendência subjacente ao desejo sensual ... esse é o fim do lançar mão de clavas e armas … nesse caso esses estados ruins e prejudiciais cessam sem deixar vestígio,' eu entendo que o significado em detalhe é o seguinte:

AQUI COMEÇA A EXPLICAÇÃO SOBRE O TEMA QUE ESTAMOS ESTUDANDO!

16. "Na dependência do olho e das formas a consciência no olho surge. O encontro dos três é o contato. Com o contato como condição surge a sensação. Aquilo que a pessoa sente, isso ela percebe. Aquilo que a pessoa percebe, nisso ela pensa. Naquilo que a pessoa pensa, isso prolifera mentalmente. Tendo a proliferação mental como fonte, percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental atormentam a pessoa com respeito a formas passadas, futuras e presentes reconhecidas através do olho.

"Na dependência do ouvido e dos sons, a consciência do ouvido surge. O encontro dos três é o contato. Com o contato como condição surge a sensação. Aquilo que a pessoa sente, isso ela percebe. Aquilo que a pessoa percebe, nisso ela pensa. Naquilo que a pessoa pensa, isso prolifera mentalmente. Tendo a proliferação mental como fonte, percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental atormentam a pessoa com respeito a formas passadas, futuras e presentes reconhecidas através do ouvido.

Na dependência do nariz e dos aromas, a consciência do nariz surge. O encontro dos três é o contato. Com o contato como condição surge a sensação. Aquilo que a pessoa sente, isso ela percebe. Aquilo que a pessoa percebe, nisso ela pensa. Naquilo que a pessoa pensa, isso prolifera mentalmente. Tendo a proliferação mental como fonte, percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental atormentam a pessoa com respeito a formas passadas, futuras e presentes reconhecidas através do nariz.

Na dependência da língua e dos sabores a consciência da língua surge. O encontro dos três é o contato. Com o contato como condição surge a sensação. Aquilo que a pessoa sente, isso ela percebe. Aquilo que a pessoa percebe, nisso ela pensa. Naquilo que a pessoa pensa, isso prolifera mentalmente. Tendo a proliferação mental como fonte, percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental atormentam a pessoa com respeito a formas passadas, futuras e presentes reconhecidas através da língua.

Na dependência da mente e dos objetos mentais, a consciência na mente surge. O encontro dos três é o contato. Com o contato como condição surge a sensação. Aquilo que a pessoa sente, isso ela percebe. Aquilo que a pessoa percebe, nisso ela pensa. Naquilo que a pessoa pensa, isso prolifera mentalmente. Tendo a proliferação mental como fonte, percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental atormentam a pessoa com respeito a objetos mentais do passado, futuro e presente reconhecidos pela mente.

17. "Quando existe o olho, uma forma e a consciência no olho, é possível apontar a manifestação do contato. Quando existe a manifestação do contato é possível apontar a manifestação da sensação. Quando existe a manifestação da sensação é possível apontar a manifestação da percepção. Quando existe a manifestação da percepção é possível apontar a manifestação do pensamento. Quando existe a manifestação do pensamento é possível apontar a manifestação de um ser atormentado pelas percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental.

" Quando existe o ouvido, existe som e existe a consciência no ouvido ... Quando existe o nariz, existe aroma e existe a consciência no nariz ... Quando existe a língua, existe sabor e existe a consciência na língua ... Quando existe o corpo, existe tangível e existe a consciência no corpo ... Quando existe a mente, existe objeto mental e existe a consciência na mente ... é possível apontar a manifestação de um ser atormentado pelas percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental.

18. "Quando não existe o olho, não existe forma e não existe a consciência no olho, é impossível apontar a manifestação do contato. Quando não existe o contato é impossível apontar a manifestação da sensação. Quando não existe a sensação é impossível apontar a manifestação da percepção. Quando não existe a manifestação da percepção é impossível apontar a manifestação do pensamento. Quando não existe a manifestação do pensamento é impossível apontar a manifestação de um ser atormentado pelas percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental.

" Quando não existe o ouvido, não existe som e não existe a consciência no ouvido ... Quando não existe o nariz, não existe aroma e não existe a consciência no nariz ... Quando não existe a língua, não existe sabor e não existe a consciência na língua ... Quando não existe o corpo, não existe tangível e não existe a consciência no corpo ... Quando não existe a mente, não existe objeto mental e não existe a consciência na mente ... é impossível apontar a manifestação de um ser atormentado pelas percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental.

(ATENÇÃO: “Existir” e “não existir”, olho, ouvido, língua etc não significa que a gente deixa de ter essas partes do corpo! O sentido é de que não estamos lembrando, não estamos conscientes dessas partes do corpo… Nós não passamos o dia lembrando que temos olho, orelha etc. Só nos percebemos da existência deles quando algo nos afeta. Por isso o Buddha afirma que “não existem”)

19. "Amigos, quando o Buddha se levantou do seu assento e foi para a seu abrigo depois de expor um resumo sem analisar o seu significado em detalhe, isto é: 'Bhikshús, quanto à fonte através da qual as percepções e concepções impregnadas pela proliferação mental atormentam um homem: se ali nada é encontrado que deleite, que seja bem-vindo, que deva ser mantido, esse é o fim da tendência subjacente ao desejo sensual ... esse é o fim do lançar mão de clavas e armas ... nesse caso esses estados ruins e prejudiciais cessam sem deixar vestígio,' é assim como eu entendo o significado em detalhe. Agora, amigos, se vocês quiserem, podem ir até o Buddha perguntar-lhe qual o significado disso. Exatamente aquilo que o Buddha explicar é o que vocês deverão se lembrar."

20. Então os Bhikshús, tendo se alegrado e se deliciado com as palavras do Venerável Maha Kaccana, levantaram-se dos seus assentos e foram até o Buddha. Após homenageá-lo, eles sentaram a um lado e relataram ao Buddha aquilo que havia ocorrido depois que ele havia partido, adicionando o seguinte: "Então, Venerável Senhor, fomos até o Venerável Maha Kaccana e lhe perguntamos sobre o significado. O Venerável Maha Kaccana nos explicou o significado com estes termos, afirmações e frases."

21. "Maha Kaccana é Sábio, Bhikshús, Maha Kaccana possui muita Sabedoria. Se vocês me tivessem perguntado o significado, eu teria analisado da mesma forma que Maha Kaccana analisou. Esse é o significado e é assim como vocês deverão se lembrar."

22. Quando isso foi dito, o venerável Ánanda disse para o Buddha: "Venerável Senhor, tal como se um homem exausto e faminto encontrasse uma bola de mel e ao comê-la ele experimentasse um sabor doce delicioso; assim também, Venerável Senhor, qualquer Bhikshú com uma mente hábil, ao examinar com Sabedoria o significado deste discurso do Dharma, irá encontrar satisfação e confiança. Venerável Senhor, qual é o nome deste Ensinamento do Dharma?"

"Quanto a isso, Ánanda, você poderá se lembrar deste Ensinamento do Dharma como o "Ensinamento da Bola de Mel.'"

Isso foi o que disse o Buddha. O Venerável Ánanda ficou satisfeito e contente com as palavras do Buddha.


Fim do Ensinamento da Bola de Mel!

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