PEDINDO OU OFERECENDO?



Sukhí Hôtu!


Quando o Ven. Ajahn Chah ("adjáan tcha"aa), já idoso, aceitou a proposta de ir até a Inglaterra, em 1979, acompanhar a fundação do primeiro Templo Theravada por lá, ele já não era jovem, nunca tinha saído da calma vida do interior da Tailândia e não falava nenhuma língua além do Tailandês e de seu dialeto local, o Issán.


Foi com um intérprete e, sem ele do lado, não saberia se comunicar de forma alguma. No primeiro dia que saiu pelas ruas, descalço, careca, enrolado em seu manto monástico e com a grande tigela de mendigar alimento, é claro que tal visão parou gente nas ruas de Londres! Um senhor se aproximou, meio constrangido e perguntou ao intérprete o que era aquele senhor de aparência tão estranha. O intérprete explicou que era um monge buddhista (budista), da Tradição Theravada da Tailândia. Ao traduzir para o Venerável mestre a pergunta sobre o quê ele estava pedindo, o Ven. Ajahn Chah respondeu: "Diga a ele que não estou pedindo nada... Estou oferecendo!" E, com esta resposta e o auxílio do intérprete, foi assim que o Venerável ensinou pela primeira vez o Dhamma na Inglaterra.


Nós monges não pedimos nada. Temos consciência de que vivemos graças à generosidade alheia e dependemos das doações de cada leigo, sejam elas muitas, poucas ou quase nenhuma. Se temos o suficiente para vivermos - vivemos. Se não temos - sobrevivemos... Assim é nossa vida. Não podemos nem devemos pedir nada, porque assim são nossos Preceitos, nossa opção de vida.


Mas, estamos sempre oferecendo. Oferecemos ajuda, aconselhamento, paciência, compaixão, energia positiva e, muitas vezes, palavras fortes e duras que tragam de volta à realidade aqueles que estão perdidos na ilusão sobre como ver a vida. Tudo isso nós oferecemos, sem pedir nada em troca, sem barganhar, sem negociar...


Se engana quem pensa que temos salário, que temos quem nos faça doações mensais ou envie dinheiro da Ásia, a cada mês, para nos mantermos abrigados, alimentados e prontos para levarmos adiante nosso trabalho. Trabalho?? Sim, trabalho! Trabalho incessante, sem folga de fim de semana, sem feriado nem dia santo! Trabalhamos traduzindo Ensinamentos, ouvindo pessoas, aconselhando por horas a fio, na internet ou pessoalmente. Um trabalho cansativo, paciente, silencioso e, por vezes, nem reconhecido e mal interpretado pela maioria das pessoas, que acha que "monge não faz nada e vive às custas dos outros"...


O grande Ven. Ajahn Chah estava certo e isso intrigou o tal inglês que o abordou na rua... Nós monges não pedimos nada: oferecemos! E, o que quer que recebamos dos leigos, nada mais é que a única maneira que temos de estarmos sempre prontos e em condições - ainda que precárias - de continuarmos ajudando a toda e qualquer pessoa que nos procure, buddhista ou não!


Fiquem todos em Paz e protegidos!


Ajahn Sunanthô

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