SE TODOS ESTIVESSEM CONTENTES, COMO O PROGRESSO PODERIA SER ALCANÇADO?



Para muita gente, principalmente no Ocidente, é difícil entender o verdadeiro significado da prática buddhista. Alguns acham que, para ser buddhista, é preciso raspar a cabeça, vestir os tais "panos" e se isolar do mundo, para ficar o tempo todo meditando! Nem mesmo nos monges passamos o dia inteiro meditando, portanto, isso é uma distorção da realidade do que é ser monge... Buddhistas não precisam se tornar monges. Podem namorar, ouvir música, cozinhar, trabalhar, se casar, ter filhos...


Outro aspecto complicado para o entendimento das pessoas em geral, é a questão do desapego. O Buddha nunca disse que as pessoas têm que abandonar tudo e se tornarem pobres ou que não possam ter ambição de uma vida melhor, com bens materiais! A ambição é o que move o ser humano a progredir, descobrir novas metas, melhorar sua vida e a da sociedade e isso é algo bom que deve ser desenvolvido em cada um de nós. Se formos indolentes, sem metas, sem qualquer motivação, o mundo não pode continuar porque as pessoas não conseguiriam nem plantar e produzir o próprio alimento.


O que o Buddhismo ensina é o contentamento ou seja, uma vez que determinada meta seja alcançada, que determinado objetivo esteja cumprido, devemos ficar contentes e aproveitar os frutos do que conseguimos em vez de, imediatamente, desejar mais e mais. Logo surgirão novos objetivos, novas metas e, então - somente então - devemos nos esforçar novamente para atingirmos essa nova conquista. Uma vez que nossas vidas já tenham mais do que suficiente para vivermos bem, tudo o que temos a fazer é manter o patrimônio, com ética e honestidade, para que a vida continue sendo boa e nossos bens nos tragam felicidade. Vejam o que disse sobre o contentamento, o Venerável Ajahn Phra Thêp Jayasaro ("djayassárôo") um dos maiores mestres do Buddhismo atual. Confiram!


O Buddhismo ensina sobre o contentamento. Mas se todos estivessem contentes com suas vidas, como o progresso humano poderia ser alcançado?


"As virtudes ensinadas pelo Buddha devem ser compreendidas dentro do contexto geral de seu caminho para o despertar (o Estado Mental do Nibbana/Nirvana). Sempre que o Buddha falava sobre contentamento, ele o associava a uma qualidade energética como diligência, persistência ou vontade de produzir. Ele teve o cuidado de deixar claro que contentamento não está de forma alguma conectado com preguiça e não é outra palavra para passividade. O contentamento, em seu sentido buddhista, deve ser apreciado à luz da importância central que o Buddha deu ao esforço humano. O Buddha criticou veementemente as filosofias que promovem o fatalismo e, certa vez, comparou pessoas desatentas a cadáveres ambulantes. O contentamento não prejudica o esforço, mas garante a melhor base possível sobre a qual ele pode ser feito.


Os seres não iluminados geralmente sentem que estão perdendo, que as coisas que não possuem os tornariam mais felizes do que as coisas que já possuem. Mesmo quando o desejo é satisfeito, a mente saciada, mas a sensação de carência não muda com a experiência, essa esperança sobrevive. Aprender a apreciar os méritos do que já possuímos nos permite abrir mão dos desejos, frustrações e ciúmes. Estabelecemos metas realistas e nos aplicamos diligentemente para criar as causas e condições para a realização dessas metas. Mas, enquanto isso, aproveitamos, tanto quanto possível, a situação atual. Pois seria uma coisa triste colocar todas as nossas esperanças de felicidade em um futuro que nunca chega."


- Traduzido para o português por Ajahn Sunanthô

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