SOBRE A DIFÍCIL PRÁTICA DE ACREDITAR, QUANDO ÀS VEZES PARECE INACREDITÁVEL...



Eu estava há pouco tempo na Tailândia, mas já morando em Bangkok, vivendo de favor no Wat Duang Khea, onde dormia num cantinho do chão, no quarto de um amigo, o Ven. Mahá Somjêt. Como ele dormia até tarde, me ensinou a ir Pindabáta (a ronda de mendigar alimentos) e eu tinha que coletar comida para dois.

Estava terminando o prazo de três meses do meu visto de turista e eu tinha que deixar a Tailândia, atravessar a fronteira e, voltando no mesmo dia, receber mais três meses no carimbo do passaporte. Claro que, para isso, eu precisava de muito dinheiro, para a passagem de trem até o Laos ou à Malásia, duas viagens longas que também exigem dinheiro para a alimentação.

Os rituais onde os leigos doam dinheiro eram raros, porque o Templo é um Templo Funerário onde são feitas cremações com recitação feita pelos monges e, para complicar, por eu ser um novato e desconhecido, um mero gringo, nem sempre era chamado. Me restava, então, contar com as poucas doações de dinheiro, que os leigos põem na tigela, junto com o alimento que doam. Assim, naquela manhã de sol, saí bem cedo e muito preocupado. O tempo passando depressa e a ideia de ter que conseguir dinheiro estava me tirando o sono.

Percorri meu trajeto normal e os devotos de sempre me doaram alimento suficiente para mim e para o Ven. Somjêt mas, na ânsia de que alguém me desse dinheiro, resolvi alongar o caminho e segui rumo ao mercado público, uma feira na rua, onde muitos monges já têm seus doadores habituais - sim, existe isso: a área de mendicância de cada monge e eu estava "invadindo" um território desconhecido.

Mal entrei na área do mercado, um pensamento surgiu: "Vergonha, Sunanthô! Tigela cheia e ainda andando, correndo atrás de dinheiro?? Foi para isso que você se tornou monge? Não sabe que basta confiar no Dhamma e tudo se resolve?" E assim, com a tigela tampada, pequei um atalho de volta ao Templo, por uma das muitas ruazinhas estreitas daquela área. Uma rua comercial onde não havia residências e todas as lojas ainda estavam fechadas. Segui pelo meio da rua e, para me assustar, alguém buzinou de dentro de um carro, logo atrás de mim. Rapidamente me afastei para dar passagem e, bem devagar o motorista parou ao meu lado... Abriu o vidro do carro e esticando o braço, me doou uma nota de CEM BAHT! Agradeceu em "wai" (mãos postas à altura da testa) fechou o vidro e seguiu caminho.

A quantia era mais do que eu poderia conseguir em três ou quatro dias de mendicância... Fiquei ali parado, por alguns minutos... Balancei a cabeça, sorri e acelerei o passo, de volta ao Templo.


Ajahn Sunanthô Therô

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