SOBRE CULPA E VERGONHA

EN PORTUGUÉS DE BRASIL, CON VERSIÓN EN ESPAÑOL A CONTINUACIÓN



Sukhí Hôtu!

(Conselho a um novo seguidor, chileno, que será um excelente buddhista!)


Culpa e vergonha são dois sentimentos, muitas vezes sentidos ao mesmo tempo, que podem ser muito úteis no nosso desenvolvimento da Purificação Mental, ou um tremendo peso em nossas vidas, com sérias consequências que podem até ser fatais. Por isso, devemos analisar cuidadosamente, toda vez que culpa e vergonha se formam em nossa mente, para podermos reagir de acordo com cada situação.

São sentimentos muito antigos, que sempre estiveram presentes no imaginário Humano e, tão fortes que até mesmo os animais são capazes de se sentirem culpados e envergonhados. Quem nunca viu, por exemplo, a cara de um cão que fez xixi no tapete, quando o dono descobre a má ação? A diferença, porém, é que nos animais, culpa e vergonha não permanecem por muito tempo na mente deles, enquanto que, nós humanos, somos capazes de carregar essas coisas pesadas ao longo de nossas vidas. Então, como lidar com a culpa e a vergonha? Quando nos serão úteis no cultivo da Purificação Mental e quando serão um obstáculo a ser derrubado? Vamos ver?


Comecemos pela culpa, considerando que a vergonha, geralmente, é um efeito de se culpado por algo... A culpa indesejável, é quando a pessoa fui induzida por alguma coisa ou até pela sociedade em geral, a se sentir culpada de algo que, na realidade, não é motivo de culpa. Quando eu morava na Tailândia, tentaram me ensinar que o data do aniversário é um dia triste para a pessoa! A explicação seria de que, ao nascermos, causamos a dor do parto em nossas mães... Ora... Isso é um enorme engano, uma grande tolice! Nenhum bebê, por mais complicado que seja o parto, tem qualquer intenção de causar sofrimento à sua mãe! Ele apenas está tentando sair de um lugar onde não pode mais ficar e realizando um enorme esforço, sem nem saber para onde vai ou o que o aguarda fora do lugar onde esteve protegido por nove meses! Onde está o motivo de culpa?? Simplesmente, não há!


Igualmente injusto é culpar alguém - algumas mães fazem isso, infelizmente - por terem passado por maus momentos ao darem à luz seus filhos. Também acho desnecessário quando um pai ou parente fica lembrando ao filho de que sua mãe morreu na sala do parto. Nada disso é razão de culpa e são fatos que devem ser deixados para trás, jogados fora ao longo da trajetória de vida de todos os envolvidos e nunca mais falarem sobre isso. Por que haveria razão para alguém se envergonhar de algo que nem sabia que estava acontecendo e teria tentado evitar, caso soubesse?


Outra situação bem comum, que vemos cada vez mais nos noticiários, é sobre o abuso sexual, quando alguém - mulher ou homem - é vítima de violência, de sexo à força e, de forma revoltante, a pessoa "deixa de ser" a vítima e passa a ser vista como responsável pela violência que sofreu. Isso é um absurdo! Ainda que fosse o caso da vitima ter se insinuado para o agressor - o que rarissimamente é o caso, nada justifica o ato sexual à força, a violação da intimidade de quem quer que seja. Mais um claro motivo de culpa (e vergonha!) sem qualquer justificativa, um trauma que a vítima deve se esforçar o quanto antes para deixar de lado, ainda que nunca vá se esquecer de tudo de horrível que lhe aconteceu. Pelo menos, deve se conscientizar para não se sentir nem com culpa nem com vergonha.

Em muitas culturas e, lamentavelmente, também na nossa sociedade, ainda há muita discriminação sobre a homossexualidade, tanto feminina quanto masculina, sendo a última muito mais forte e visível. É inacreditável que, nos dias de hoje, muitos pais ainda expulsem de casa seus filhos homossexuais, alegando que eles causam vergonha ao nome da família! De repente, o jovem se vê na rua, desprotegido, sem dinheiro, sem qualquer rumo, sem qualquer razão para isso estar se passando em sua vida e muitos chegam realmente a acreditar que são motivo de vergonha para os familiares e a sociedade, simplesmente por causa de algo que ninguém decide qual vai ter nem é possível trocar: a própria sexualidade! Este é outro exemplo, bem triste e objetivo de como a culpa e a vergonha são pesos desnecessários, impensados e injustos que podem levar alguém à desgraça e até ao suicídio.


Espero ter deixado claro sobre quando culpa e vergonha NÃO são úteis para o nosso cultivo da Sabedoria. Eu poderia citar dezenas de exemplos, mas, vamos ver agora quando e como devemos agir para que esses dois sentimentos se tornem aliados nossos no processo da Purificação Mental, que é o objetivo da prática buddhista.


Devemos estar sempre atentos a tudo o que nossa mente está fazendo. Observar a mente e a trazer de volta para o alcance de nossa consciência, é um trabalho constante que todo buddhista deve realizar. Assim, quando fazemos algo errado, algo que os Sábios, os Mestres e nossos Antepassados se decepcionariam e nos criticariam, é nosso dever nos autoavaliarmos, nos arrependermos e nos apressarmos em corrigir o que fizemos de errado, aqui incluindo a retratação diante das pessoas a quem nosso erro possa ter prejudicado: "Estou lhe procurando para pedir perdão, para me DESCULPAR pelo que fiz de errado e lhe causou dano! Me comprometo a não fazer mais e, caso eu volte a errar, por favor, me avise e me corrija, para que eu me torne sempre alguém melhor!" Com estas ou outras palavras, a atitude sempre será nobre, digna e, dificilmente a pessoa ofendida ou prejudicada poderá guardar rancor ou qualquer sentimento negativo. Ainda que aconteça, o importante é que a pessoa que errou se arrependeu e tomou a iniciativa de expressar isso.


Sempre é fundamental perguntarmos - de nós para nós mesmos, em nosso íntimo, se a culpa que estamos sentindo tem realmente um motivo ou se é uma criação de nossa mente, para nos fazermos sentir autopiedade. É essa pausa para avaliação, para reflexão sobre nossas ações que vai determinar se o sentimento de culpa é sincero e digno de reparação ou se é algo fictício, uma simples formação mental a ser descartada.


A VERGONHA, caso seja realmente verdadeira, é um constante lembrete de que fizemos algo errado o qual ainda não ficou bem resolvido em nossa consciência, ou seja, ainda não fizemos as pazes com nós mesmos e isso fica incomodando nossa mente, nos empurrando para tomarmos uma atitude que nos libere desse sentimento pesado e feio.


Ao avaliarmos que nossa ação foi realmente vergonhosa, indigna do nome de nossos ancestrais, decepcionante para nossos Mestres e Orientadores, então a vergonha deve nos conduzir à reparação do erro e, esse tipo de vergonha é o que chamamos, tecnicamente, de H´RI, um sentimento forte e puro de que agimos errado, sentimento este que só nos deixa em paz depois que corrigimos nossa má ação e estamos prontos para seguir adiante, sem repetirmos nossos erros.


Este é meu entendimento sobre culpa e vergonha, com base no que aprendi e tento praticar dos Ensinamentos do Buddha. Espero que seja útil a todos os que lerem e, como sempre, estou à disposição de todos os que quiserem conversar mais sobre esse e outros assuntos. Por enquanto, fiquem todos em Paz e protegidos!


Ajahn Sunanthô Therô






VERSION EN ESPAÑOL:


Sukhí Hôtu!


ACERCA DE LA CULPA Y LA VERGÜENZA

(¡Aconsejo a un nuevo seguidor, chileno, que será un excelente buddhista!)


La culpa y la vergüenza son dos sentimientos, que a menudo se sienten al mismo tiempo, que pueden ser de gran ayuda en nuestro desarrollo de la Purificación Mental, o una carga tremenda en nuestra vida, con graves consecuencias que incluso pueden llegar a ser fatales. Por lo tanto, debemos analizar detenidamente cada vez que se forman en nuestra mente la culpa y la vergüenza, para que podamos reaccionar de acuerdo a cada situación.


Son sentimientos muy antiguos, que siempre han estado presentes en la imaginación humana, y tan fuertes que incluso los animales son capaces de sentirse culpables y avergonzados. ¿Quién nunca ha visto, por ejemplo, la cara de un perro que ha orinado en la alfombra, cuando el dueño descubre la irregularidad? La diferencia, sin embargo, es que en los animales, la culpa y la vergüenza no permanecen en sus mentes por mucho tiempo, mientras que los Humanos podemos llevar estas cosas pesadas a lo largo de nuestras vidas. Entonces, ¿cómo lidiarmos con la culpa y la vergüenza? ¿Cuándo nos ayudarán a cultivar la Purificación Mental y cuándo serán un obstáculo que superar? ¿Vamos a ver?

Empecemos por la culpa, considerando que la vergüenza suele ser un efecto de ser culpado por algo ... La culpa no deseada es cuando una persona ha sido inducida por algo o incluso por la sociedad en general a sentirse culpable por algo que, en realidad, no es una causa de culpa. Cuando vivía en Tailandia, ¡intentaron enseñarme que un cumpleaños es un día triste para una persona! La explicación sería que, cuando nacemos, provocamos el dolor del parto en nuestras madres ... Bueno ... ¡Esto es un error enorme, un disparate enorme! ¡Ningún bebé, por complicado que pueda ser el parto, tiene la intención de causarle dolor a su madre! ¡Solo está tratando de salir de un lugar donde ya no puede quedarse y haciendo un gran esfuerzo, sin siquiera saber a dónde va o qué le espera fuera del lugar donde ha estado protegido durante nueve meses! ¿Dónde está la causa de la culpa? ¡Simplemente no la hay!


Igual de injusto es culpar a alguien (lamentablemente algunas madres lo hacen) por haber tenido dificultades para dar a luz a sus hijos. También me parece innecesario que un padre o un familiar le recuerden a un niño que su madre murió en la sala de partos. Nada de esto es reprochable y son hechos que deben dejarse atrás, desecharse a lo largo de la trayectoria de vida de todos los involucrados y nunca volver a hablar de ellos. ¿Por qué alguien se avergonzaría de algo que ni siquiera sabía que estaba sucediendo y habría tratado de evitarlo si lo supiera?


Otra situación muy común, que vemos cada vez más en las noticias, es la del abuso sexual, cuando alguien -mujer u hombre- es víctima de violencia, sexo forzado y, de manera repugnante, la persona "deja de ser" el víctima y llega a ser vista como responsable de la violencia que sufrió. ¡Eso es un absurdo! Incluso si fuera el caso de que la víctima se hubiera insinuado al agresor, lo que rara vez es el caso, nada justifica el acto sexual forzado, la violación de la intimidad de alguien. Otro claro motivo de culpa (¡y vergüenza!) sin ninguna justificación, un trauma que la víctima debe esforzarse lo antes posible por dejar de lado, aunque nunca olvidará todo lo horrible que le sucedió. Como mínimo, la persona debe ser consciente de no sentirse culpable ni avergonzada.


En muchas culturas y, lamentablemente, también en nuestra sociedad, todavía existe mucha discriminación sobre la homosexualidad, tanto femenina como masculina, siendo esta última mucho más fuerte y visible. ¡Es increíble que, en estos días, muchos padres todavía expulsen a sus hijos homosexuales de sus hogares, alegando que traen vergüenza al apellido! De repente, el joven se encuentra en la calle, desprotegido, sin un centavo, sin rumbo, sin ningún motivo para que esto suceda en su vida y muchos de hecho llegan a creer que son una fuente de vergüenza para sus familias y la sociedad, simplemente porque por algo que nadie decide cuál tendrá, ni se puede cambiar: ¡la sexualidad misma! Este es otro ejemplo, muy triste y objetivo, de cómo la culpa y la vergüenza son pesos innecesarios, irreflexivos e injustos que pueden llevar a alguien a la desgracia e incluso al suicidio.


Espero haber dejado claro cuando la culpa y la vergüenza NO son útiles en nuestro cultivo de la Sabiduría. Podría citar decenas de ejemplos, pero veamos ahora cuándo y cómo debemos actuar para que estos dos sentimientos se conviertan en nuestros aliados en el proceso de Purificación Mental, que es el objetivo de la práctica budista.


Siempre debemos estar conscientes de lo que esté haciendo nuestra mente. Observar la mente y traerla de vuelta a nuestra conciencia es un trabajo constante que todo budista debe hacer. Entonces, cuando hacemos algo mal, algo de lo que los Sabios, los Maestros y nuestros Ancestros se sentirían decepcionados y nos criticarían, es nuestro deber autoevaluarnos, arrepentirnos y apresurarnos a corregir lo que hicimos mal, incluida la retractación frente a nosotros. personas a las que nuestro error pudo haber perjudicado: "Te estoy esperando para pedir perdón, para DISCULPAR lo que hice mal y te causé daño! Prometo no hacer más y, si vuelvo a cometer un error, por favor déjame ¡Conóceme y corrígeme, para que siempre pueda convertirme en alguien mejor! " Con estas u otras palabras, la actitud siempre será noble, digna y la persona ofendida o lastimada difícilmente podrá guardar rencor o algún sentimiento negativo. Aunque ocurra, lo importante es que la persona que cometió un error se arrepintió y tomó la iniciativa de expresarlo.


Siempre es fundamental preguntarnos, de nosotros mismos a nosotros mismos, interiormente, si la culpa que sentimos realmente tiene un motivo o si es una creación de nuestra mente, para hacernos sentir autocompasión. Es esta pausa de valoración, de reflexión sobre nuestras acciones la que determinará si el sentimiento de culpa es sincero y merece ser reparado o si se trata de algo ficticio, una simple formación mental a descartar.


VERGÜENZA, si es realmente cierto, es un recordatorio constante de que hemos hecho algo mal que no ha sido completamente resuelto en nuestra conciencia, es decir, no hemos hecho las paces con nosotros mismos y sigue molestando nuestras mentes, empujándonos a tómalo, una actitud que nos libere de este sentimiento pesado y feo.


Cuando evaluamos que nuestra acción fue realmente vergonzosa, indigna del nombre de nuestros antepasados, decepcionante para nuestros Maestros y Asesores, entonces la vergüenza debería llevarnos a reparar el error y este tipo de vergüenza es lo que técnicamente llamamos H'RI, un fuerte y puro sentimiento de que hicimos mal, un sentimiento que solo nos deja solos después de que hemos corregido nuestro mal y estamos listos para seguir adelante, sin repetir nuestros errores.


Esta es mi comprensión de la culpa y la vergüenza, basada en lo que he aprendido y trato de practicar de las Enseñanzas del Buddha. Espero que sea de utilidad para todo el que lo lea y, como siempre, estoy a disposición de todo aquel que quiera hablar más sobre este y otros temas. ¡Por ahora, estén todos en Paz y protegidos!


Ajahn Sunanthô Thero


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