SOBRE ESSE ATO TÃO SIMPLES (E, ÀS VEZES AUTOMÁTICO!) QUE É COMER

Atualizado: Ago 22



Pode ser entre a refeição da manhã e o almoço, no meio da tarde ou até de madrugada, quando a pessoa não jantou o bastante e o estômago a leva a uma visitinha à geladeira... O fato é que, para todos nós, o ato de comer é algo acessível a qualquer hora. De uma refeição farta e gostosa em família a um simples salgadinho acompanhando um filme na TV, ninguém em nossa Sangha realmente passa fome e, devemos todos ser muito gratos por isso!

Exatamente neste momento em que você está lendo este texto, milhões de pessoas estão sofrendo pela falta de comida. O estômago dói, não as deixa em paz, as faz ficarem tontas, com frio e baixa pressão... O sentimento da fome é torturante, é corrosivo, angustiante. Só quem já sentiu fome a ponto de ter que revirar uma lata de lixo em busca do que comer sabe realmente o que é isso e eu posso dizer que já passei por essa experiência nada agradável e isso, em parte, mudou minha maneira de ver a vida. Espero, sinceramente, que vocês nunca passem por isso.

O fato de termos o que comer, de não nos faltar alimento e podermos, com calma e harmonia, desfrutarmos de refeições, várias vezes ao dia, é resultado de nosso bom Kamma (Karma), praticado nesta existência e em vidas anteriores. A isso, chamamos tecnicamente de BENÇÃOS. Benção, no Budismo (Buddhismo), é sempre o resultado da energia de nosso bom Kamma e, tudo o que nos acontece de bom, tudo o que temos e recebemos de bom na vida, pode ser chamado de benção.

Se somos afortunados de ter comida à nossa disposição, todos os dias, devemos refletir sobre o quanto somos abençoados e desenvolver em nós a compaixão por todos esses milhões e milhões de seres que, ontem não comeram e hoje mesmo, não terão nem as sobras de uma única refeição nossa.

Por tudo isso, devemos SEMPRE, como algo que se torne um hábito saudável, oferecer todo e qualquer alimento antes de comermos e expressar nossa gratidão, mesmo que terminemos de comer um pacotinho de batata frita! Como fazer isso? Cada Tradição Buddhista apresenta suas próprias recitações e formas de oferecer e agradecer pelo alimento. Na Tradição Theravada, nós monges recitamos longos textos em Páli antes e após as refeições. Isso é possível na vida do Templo, com os monges todos reunidos e com uma vida de prática monástica mas não é compatível com a vida de leigo, onde o almoço muitas vezes é solitário, num restaurante ou, mesmo em família, hoje em dia cada um come num horário diferente e são raras as refeições com todos presentes. Então, optar por algo mais simples e garantido de ser dito é bem melhor.

Os japoneses dizem "ITADAKIMÁSS" antes da refeição, sempre com as palmas das mãos juntas... Ao final da refeição, usam "GOTCHISSÔO SAMÁ", também juntando as mãos. A primeira expressão, traduzida por "vou me servir", mostra que a pessoa tem consciência da importância e valor de estar diante de uma refeição. Já a expressão após a refeição é uma forma de agradecimento a todos os que estiveram envolvidos no preparo da refeição. Não apenas quem cozinhou, mas até quem cultivou a terra para plantar os legumes, cuidou dos animais que viraram alimento etc.

Os chineses apenas juntam as palmas das mãos e dizem "Vamos comer!". Nos Templos chineses há diversas recitações curtas, como "Oferecemos a todos os buddhas, oferecemos a todos os dharmas, oferecemos a todos os seres do Reino do Dharma!"

Eu, com minha mente cheia de idiomas diferentes, uso a fórmula que me vier primeiro à memória! Pode ser "itadakimáss" ou "Afiyet Olsun!" (em Turco/Ladino) ou uma forma um pouco mais longa recitada em Afrikaans, que tem a seguinte tradução: "Resultado de bençãos é esta refeição e eu estou conscientemente muito grato por ela!" É a que sugiro a todos vocês, por ser simples, nada longa e significativa! Para após a refeição, basta variar um pouquinho: "Resultado de bençãos FOI esta refeição..." Simples, né?

Nada impede que você e sua família criem e usem suas próprias formas de agradecer. O que importa é que nunca se esqueçam de serem gratos antes e depois de comerem e tentem fazer disso um hábito de família, a ser transmitido a todos. Mais do que um agradecimento, é uma forma de honrar e respeitar a todos os que passam fome. Pensem nisso!


Fiquem todos em Paz e protegidos!


Ajahn Sunanthô Therô

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