SOBRE O JEITO BUDISTA DE ENCARAR O “PECADO”



Sukhí Hôtu!


As religiões, que têm como característica em comum a existência de, pelo menos, um deus superior que está sempre observando atentamente aos seus seguidores e pronto a recompensá-los por seus bons atos e castigá-los toda vez que não se comportam de acordo com as regras religiosas a eles impostas. Assim, quem segue uma religião, tem que estar sempre alerta às variações de humor desse ser superior que varia desde ser “amor profundo” (deus é amor, dizem os religiosos) até um rompante de raiva (“a ira divina”), capaz de destruir até mesmo povos inteiros, caso desobedeçam o que ele determinar.


Esse constante controle divino das ações do seguidor, faz com que os religiosos sigam suas vidas baseados no conceito do que agrada ou desagrada a deus. Quando agradam a deus, são recompensados e, quando fazem algo contra o que ele determinou, a isso chamam de PECADO e devem se apressar em pedir perdão, antes de sofrerem as consequências de suas más ações. Toda religião tem suas regras próprias do que é pecado ou boa ação, do que agrada ou não a deus.

No Buddhismo, porém, não existe o conceito de deus. Não é uma religião, como muita gente pensa. O Buddha não era nem nunca foi um deus, mas sim um ser humano que, por esforço próprio e sem qualquer intervenção divina, descobriu um Caminho confiável que o levou a alcançar Sabedoria plena e sem volta. Tornou-se O Iluminado e, esse mesmo caminho, por ele percorrido até o fim, foi o que ele nos ensinou, nos deixou como herança para que também nós possamos percorrer nos tornando iluminados, algum dia. Então, se não há deus, nem ninguém que possa ser esse constante observador de nossas ações, como seremos recompensados ou castigados? Quem é esse avaliador de nossas ações? Na verdade, nós mesmos e ninguém além de nós!


O fato é que deus não se materializa diante de seus fiéis para dizer pessoalmente: “Você agiu errado e, por isso vou lhe castigar!” ou “Muito bom, caro seguidor! Você vai ser recompensado por mim!” a verdade é que, mesmo o mais temente a deus entre todos os religiosos, tem dentro de si algo chamado CONSCIÊNCIA. É isso que, no momento de praticar toda e qualquer ação, como se fosse um alarme interior, nos avisa se o que estamos fazendo é certo ou errado. Ninguém comete uma má ação (ou pecado, se quiserem chamar assim) sem ter noção alguma de que está fazendo algo errado. Qualquer pessoa que tenha a mente normal, sem qualquer problema psíquico, sabe o que está fazendo e é responsável por suas ações.


No Buddhismo, e isso é algo comum a todas as diversas Tradições Buddhistas, cada um é responsável pelo que faz. Ações intencionais, às quais chamamos de KARMA, produzem bons ou maus resultados, que são “contabilizados” gerando consequências positivas ou negativas em nosso dia a dia.


Mas, se não há o conceito de “pecado” e, ainda assim, cometemos más ações, como agir toda vez que as cometemos? A vida de um buddhista deve ser sempre guiada pelos Cinco Preceitos, que a pessoa recebe de nós monges ao decidir seguir somente o Buddhismo como modo de vida. Ao quebrar ao menos um desses Preceitos, o praticante buddhista deve sentir um profundo e sincero reconhecimento de sua falha. Nem o monge, muito menos o Buddha (que não tem nada com isso!) vai castigar a quem cometeu a falta. Cabe à própria pessoa procurar o monge e, sem ao menos precisar entrar em detalhes, admitir que se arrependeu e pedir de volta o Preceito que foi rompido. Nós monges, sem “sermão” nem “bronca” damos de volta o Preceito e aconselhamos a pessoa a dobrar a atenção, para que a má ação (seja ela qual for), não se repita.


A esse reconhecimento pessoal e íntimo de que a má ação foi cometida, chamamos de “Hrí”. Às vezes traduzido como “vergonha”, Hrí é, na realidade, a identificação consciente de que agimos errado e, sempre que isso acontece, causamos inquietação mental em nós mesmos e, em pelo menos mais alguém, quando não em muitas pessoas. É Hrí que nos leva a sentirmos essa tal vergonha a ponto de nos empenharmos em reparar o dano causado.


É certo que não devemos ligar para tudo o que os outros dizem sobre nós. Mas, no Buddhismo, o próprio Buddha várias vezes mencionou a figura à qual chamamos de Kaliyána Mítra, a pessoa que consideramos como companheiro(a) de jornada, alguém em quem podemos confiar plenamente, porque nos dá bons conselhos e nos mantém no caminho certo. Essa pessoa pode ser tanto um leigo quanto um monge ou até os dois. Fazemos pelo Kaliyana Mitra o mesmo que ele ou ela faz por nós, é uma relação bilateral e totalmente segura. Quando tal pessoa nos dá um conselho ou nos alerta para o que estamos fazendo de errado, devemos ouvir e mudar de atitude, porque o Kaliyana Mitra é quem nos conhece a fundo e é capaz de ver quando nosso alarme interior está “com defeito” ou fingimos que não ouvimos ele tocar.


Se, por exemplo, alguém tem algum vício do qual não consegue se livrar facilmente e o Kaliyana Mitra alerta a essa pessoa sobre o mal que está cometendo a si próprio e aos outros, a pessoa tem por obrigação ouvir o Kaliyana Mitra e acionar Hrí para mudar de atitude.


Os vícios, geralmente levam a pessoa a quebrar mais de um Preceito! Quem ama a pessoa viciada, sofre ao vê-la praticando o vício. Com isso, a pessoa vai morrendo por dentro, ainda que silenciosamente. É uma quebra do Primeiro Preceito, que o viciado está cometendo.

Enquanto está praticando o vício, a pessoa amada está preocupada, perdendo noites de sono, se angustiando… O viciado está se apoderando de algo que não lhe foi dado: o tempo que a pessoa amada está desperdiçando com ele! Essa é a quebra do Segundo Preceito!


Se esse vício for do tipo que se compartilha com outra(s) pessoa(s), todos os envolvidos estarão deixando de lado suas pessoas amadas para se deliciarem com o vício que os une. É um tipo de traição da confiança das pessoas amadas e, embora possa não envolver exatamente uma relação sexual, é também um modo especial de quebrar o Terceiro Preceito.


Uma vez que seja um vício compartilhado com outras pessoas, é impossível que a linguagem de todas elas esteja de acordo com o Preceito da FALA CORRETA que o Buddha estabeleceu. Direta ou indiretamente, o praticante buddhista estará convivendo com linguagem suja, vulgar e perigosa, quebrando assim mais um Preceito, desta vez o Quarto Preceito!


O Preceito dizendo que não devemos usar qualquer substância que altere o estado puro e natural da mente não pode estar sendo respeitado se a pessoa não encontra paz até que pratique seu vício. Ela espera ansiosa o momento de volta ao vício! Não consegue resistir, não consegue deixar de fazer… É inegável que uma mente assim já perdeu seu estado puro e natural, completando assim a quebra dos Cinco Preceitos aos quais se comprometeu diante do monge e da Comunidade que iria seguir.


HRÍ e o aconselhamento do Kaliyána Mitra são os substitutos para confessar os pecados ao padre e o medo do castigo divino. Mas é preciso que o praticante se permita estar alerta, atento ao toque de do alarme de sua consciência e se mantenha aberto para o profundo reconhecimento de sua fraqueza. Da mesma forma que o “pecador religioso” deve temer o castigo divino ou se tornará um constante desavergonhado, também o praticante do Buddhismo não pode se permitir continuar errando. A ausência de “castigo divino”, no caso de nós buddhistas, é substituído pelo efeito, muitas vezes terrível, que o mau karma provoca na vida do praticante, na maioria das vezes, infelizmente, atingindo pessoas amadas que não merecem sofrer as consequências das ações do outro.


É assim que lidamos com a questão do “pecado”, embora não usemos esse termo, nossas más ações continuam tendo peso e as consequências são recebidas na proporção exata da seriedade de nossos erros. Quem quer que cometa uma má ação, por uma vez ou por sucessivas vezes, deve ter a dignidade de se arrepender dela e, no caso de já ser um buddhista, reparar seu erro procurando tanto a nós monges quanto ao Kaliyána Mitra. Ao primeiro, deverá pedir de volta o(s) Preceito(s) quebrado(s), ao segundo, com humildade e sincero arrependimento, deverá pedir desculpas pela preocupação e mal que causou ao amigo.


Fiquem todos em Paz e protegidos!


Ajahn Sunanthô


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